UM DESENHO POR SEMANA

quinta-feira, 27 de março de 2008

Mais que água pra viver

- Eu voltei do Ceará faz pouco, fui pra lá pro enterro de um primo meu.

- Entendo
- Na volta passei por (várias cidades do nordeste) chovia muito. Uma hora lá, nós paramos em uma churrascaria na estrada. Chovia muito, e a gente falava disso...
- Você saiu de Petrolina?
- Não, foi direto do Ceará.
- Entendo. Eu vim para cá mas, não vale a pena não. A vida lá é bem melhor que aqui. O pessoal vem achando que aqui é melhor. Aqui as mulher não querem (sic) nem engravidar, por que aqui é ruim...Lá é diferente...vou ficar aqui só mais um ano...
-Vou descer aqui, você conhece a lanchonete do João lá no bairro?
- Conheço.
- Vamo (sic) combinar um dia a gente toma um suco lá.
- Pode ser sim.
- Falou então, agente se encontra e toma um suco lá... Fica com Deus
- Amém.

Não é mais um conto. O diálogo acima é real, e aconteceu dentro de um ônibus do serviço de transporte público de uma grande cidade do Estado de São Paulo, entre dois passageiros que acabavam de se conhecer e perceber que tinham histórias em comum. A mesma origem, os mesmos dilemas, o mesmo bairro atual. Mas não apenas isso. Uma mesma história de descontentamento com uma possibilidade de melhora de vida que se mostrou irreal. A vida que tinham lá atrás, de repente se tornou boa quando o presente se mostrou mais difícil do que o passado.

O ideal de ganhar a vida no “sul” continua existindo na cabeça de muitos pelo Brasil todo. Talvez hoje o que mude é um acordar mais cedo para a realidade das cidades grandes. É perceber mais rápido os prós e contras da vida deixada em relação à nova experiência.

A verdade é uma só. Todos nós estamos em busca de melhores oportunidades. Mas não existem Eldorados, e chegar à terra prometida, só depois de um bom passeio pelo deserto. A questão é que às vezes a terra prometida está bem mais perto do que pensamos, mas descobrir nem sempre é fácil. E encarar isso e voltar geralmente também não é lá muito confortável.

Quanto aos passageiros daquele ônibus, nunca saberemos se voltaram para suas cidades de origem, nem se um dia foram tomar aquele suco. O que sabemos, e às vezes é difícil de perceber, é que como eles, desde do dia do nosso nascimento, todos nós queremos mais do que água pra viver.

Trilha Sonora:
Doutor - Cidade Negra
(CD “Acústico MTV”)


quinta-feira, 20 de março de 2008

O Desafio da Colomba

Na mesa da cozinha da empresa, onde o pessoal toma o cafezinho, estava ela, fechada a espera de alguém que a experimentasse. Com a xícara de café na mão, percebia que havia uma tensão ali. A caixa me desafiava. Em vermelho estava:
“Agora + prático!
Mais molhadinho
“Mais fácil de servir”

Mais fácil de servir? Como assim? Antes era difícil? Prestei atenção na imagem da guloseima impressa na caixa. A colomba estava oval. Sim, oval. Como uma bola de hugby, como aquele salão da Casa Branca. Enfim, oval como um ovo. O que tem isso?
Se bem me lembro, o formato das colombas era o de uma pomba. Mas agora já não é mais. Pelo menos as industrializadas. “Mais fácil de servir”. Isso não saía da minha mente. Era o desafio.

No dia anterior, em supermercado, já havia percebido algo diferente na embalagem, e até tinha lido o aviso que chamava atenção para a “novidade”. Mas na pressa de entrar na quilométrica fila, para pagar uns chocolatinhos que ia comprar, não pensei demais naquilo. Certo, não parece ter mesmo muito o que pensar. Mas ali já havia ficado alguma coisa.

De volta à mesa, como no duelo de Henry Fonda e Charles Bronson em Era uma vez no Oeste, ficamos nos olhando. Aliás, em minha mente até pude ouvir a gaita que o senhor Bronson tocava no filme. Ou era a cadeira de alguém arrastando no chão, afinal logo ao lado as pessoas trabalhavam normalmente.

Comecei a pensar, que realmente o formato oval era mais fácil de servir. Ninguém tira o papel da colomba, mas se quisesse tirar, estava bem mais fácil. Lembrei que no outro formato a massa ficava grudada nas reentrâncias e saliências da silhueta da ave, o que provavelmente irritava os consumidores. No final tinha que, com a ajuda de uma colher escavar os pedaços grudados, o que creio virou uma tradição, uma curtição, como raspar o fundo da tigela no qual um bolo havia sido batido por sua mãe quando você é criança.
Marketing. Pesquisa. Consumidor. Seria isso? Atender às necessidades do público alvo?
Ou será o contrário? “Mais fácil de servir” poderia querer dizer “nós gastamos menos dinheiro na feitura da embalagem, menos tempo (o que como todo mundo sabe, também quer dizer dinheiro!), e você ganha uma embalagem prática para colocar à mesa do café da tarde no domingo de páscoa para felicidade e conforto de sua família. Quer dizer, come aí e não reclama!”

Percebi que os símbolos todos se esvaíram. Não sobrou muita coisa. Não que isso seja sempre ruim. As coisas mudam, evoluem, para o bem e para o mal. Mas o que importava ter alguma referência à data comemorativa? Aliás, a gente come pela tradição, mas a comida não lembra em nada o período. O que explica o bolo ser vendido na páscoa e um pouquinho depois dela. Exatamente como seu irmão gêmeo, o panetone, ou os seus colegas de formato, os ovos de páscoa. Talvez sejam os nossos costumes. Essa coisa da comida ter 318 significados é coisa das culturas orientais. No caso da páscoa, da tradição judaica. Tudo bem, então abaixo aos símbolos. Mas, o que é que estamos tentando lembrar com esse feriado mesmo?

“Agora + prático”. A colomba me chamou para a briga e quando estava quase acabando com toda a sua empáfia de produto com a embalagem “mais fácil de servir”, uma colega de trabalho chegou, falou alguma coisa, abriu a caixa e, sem nenhum pudor, cortou o panetone de páscoa e levou o naco para seu local de trabalho. Era como se alguém chegasse no meio de um duelo e tirasse um dos participantes para tomar um café no bar da esquina.
Depois daquilo, fui trazido à normalidade do mundo, os cinco minuto de olhos nos olhos com a embalagem acabaram, e achando que o duelo também chegara ao fim, peguei a faca, cortei um pedaço, experimentei e pensei “realmente está mais molhadinho... e a embalagem ta bem mais fácil de servir!”.

Cortei outra fatia, agora mais substanciosa, e antes de sair, dei números finais ao nosso faroeste gastronômico-antropo-mercadológico.
”Ok, empatamos. Dois a dois ta bom pra você?”
Surpreendentemente ela não respondeu. Quem cala consente.


Era uma vez no Oeste, 1968 - D. Sergio Leoni

quinta-feira, 13 de março de 2008

Duas caras (do preconceito)

Aniversário da cunhada da minha esposa. Pessoas espalhadas pela casa. Algumas sentadas na sala. Ali uma TV era desprezada, e tinha seu som abafado pelos burburinhos e conversas de festa. Foi então que aconteceu. De repente, os olhos se voltaram para a tela. Na novela um alvoroço numa rua da cidade cenográfica. Figurantes com bíblias, paus e pedras nas mãos. Com um furor de quem só poderia estar completamente louco ou possuída, uma mulher urra e lidera os figurantes vestidos de terno e gravata, ou com saias com o comprimento abaixo do joelhos no caso das mulheres , segurando as bíblias. De repente, todos esses começam a atirar pedras na mulher grávida e a espancar um rapaz. Invadem a casa da mulher grávida e quebram as coisas, rasgam o colchão. Os participantes da festa soltam expressões como, “o que é isso?”, “que absurdo!” Na mesma sala dois dos convidados sentem algo ruim, do tipo “ O escritor da novela ficou louco?”

Aguinaldo Silva não ficou. Apenas, é o desespero atual da Rede Globo em busca da audiência que um dia tiveram. E o tal do preconceito. Sim preconceito, aquele que todo mundo diz que não sente. Se você acha que eu estou falando de homofobia, defendendo os direitos da mulher (creio que esses eram os temas que o autor tentava tratar), desculpe mas você está enganado. Falo da visão sempre deturpada a respeito dos chamados evangélicos, protestantes, ou crentes, como preferir. A Falta de verossimilhança da cena chegou em um nível de qualidade abaixo do aceitável, mesmo para um simples folhetim televisivo. OK, talvez essa possa até ser a defesa contra qualquer comentário sobre a seqüência. É tão fantasiosa que ninguém vai dar atenção.Talvez não. Talvez não mereça atenção alguma. Mas no mínimo vemos um problema, o tal do preconceito.

Só faltaram as tochas para fazer uma alusão cinematográfica a caça às bruxas acontecida na transição entre idade média e moderna, por pessoas que também se diziam cristãs.
A verdade é que a história da igreja protestante no Brasil é simplesmente contrária a isso. Por sempre ser minoria, mas conseguir penetrar em território alheio, ela é que foi perseguida e literalmente apedrejada, e poucos, incluindo os próprios seguidores, sabem disso.

Nunca foi uma igreja que impediu ações políticas, leis, liberdade de imprensa ou apoiou oficialmente qualquer arbitrariedade. Ainda assim, a visão midiática dos “crentes” é sempre caricata ou perjorativa.

Duvido que alguém se lembre de qualquer trama televisiva em que houvesse a visão de “evangélicos“ que simplesmente trabalhassem, tivessem dramas, doenças, alegrias e problemas como todas as outras pessoas. Não existe.

Como em todo o setor da sociedade, seja ele agremiação, partido político, empresa, existem pessoas também ruins nas igrejas protestantes. O problema é que são sempre essas as mostradas. O espaço nunca é democrático. Passar as ações sociais, a mudanças de vida de pessoas nas mais diversas e difíceis situações, é impossível.

Queria entender esse ranço dos produtores culturais com as igrejas protestantes. Nos EUA até é possível de compreender já que lá, líderes da igreja Interferem na aprovação de leis, se mostram favoráveis às guerras sem o menor motivo que os presidentes, democratas ou republicanos, inventam e etc.

Porém, é conhecido por todos os que professam sua fé participando das igrejas evangélicas, que quanto maior a perseguição, mais a comunidade cresce e se fortalece. Os seguidores do Caminho, tem sim seus problemas, mas certamente não são o que a mídia diz.

Preconceito é uma praga. Seja por causa da cor da pele, da classe social, do gênero, da ideologia política ou da fé de cada um. Só quem sente o preconceito na pele sabe o que é. Como os católicos quando um pastor da Igreja Universal de maneira ofensiva chutou a imagem. Pois às vezes, uma obra de ficção vista por milhões de pessoas todos os dias, pode ter o mesmo efeito de um chute.

Preconceito, reitero, é uma praga. Mas hipócrita é quem diz que não tem preconceito algum.

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