UM DESENHO POR SEMANA

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um desenho por semana por um mundo mais bacana IV


Homenagem à seleção que nem sempre come a bola, mas hoje em dia devora todo o resto. Viva o campinho de terra!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Conto - As Crônicas de Nando - O armário embutido

Sentou-se em frente ao guarda-roupa, também chamado de armário. Às 15h30 da tarde, quando a maioria dos membros da família cochilava em algum canto da casa, sem nenhum sono ele se viu levado ao quarto de sua avó diante do grande móvel imóvel.

Logo após o almoço, meio perdido, ele foi lá. Depois de olhar uma ou outra bugiganga de sua avó, testar as molas da cama, o tamanho e a cor do armário chamaram sua atenção. Lembrou-se de um filme que tinha visto, cujo livro dado por seu tio, nem havia tentado ler, afinal, já havia visto a história no DVD. Aquele papo de dar asas à imaginação e dar vida às histórias lidas não colava mais com ele, já estava grande com seus 10 anos e meio. Ainda assim ficou sentado na cama de molas olhando para o guarda-roupa. “Guarda-roupa”, sussurrava, “armário, armário, guarda-roupa...armário, armário...embutido!”. “Embutido” ficou pensando nessa palavra uns 5 minutos. O que queria dizer? Uma vez quando estava com seu pais no mercado municipal, ouvira sua mãe falando que eles não deveriam comer embutidos logo que seu pai parou numa loja que tinha salames pendurados por todos os lados. Lembrou-se disso “embutidos são os salames”. Mas não contente com a própria explicação voltou-se novamente para o armário como que se perguntasse pra ele “mas se embutido é o salame, e o armário, o que é?”.

Nando não era o menino mais inteligente da sua sala. Era daqueles que tinha alegria de tirar alguns “As” mas na maioria do tempo alternava entre “Bs” e muitos “Cs” mesmo. Mas era bom em redação, pelo menos até há pouco tempo, quando decidiu que já era hora de parar de “dar asas à imaginação”. Mas sabia pensar quando queria e raramente ficava satisfeito com qualquer resposta dada às suas perguntas.

“O armário, o que é?” continuava pensando. “Todo armário que chama “embutido” fica na parede e não fora dela como aquele do filme.” “isso todo mundo sabe” minimizava ele. “Mas por quê chama embutido e o salame também?

Quando o raciocínio estava se formando na cabeça, Nando se distraiu um pouco, na verdade bocejou. Às quase 16h00 de um domingo quente, com um silêncio daqueles, por mais energia de 10 anos e meio que você tenha às vezes bate uma preguiça, principalmente quando se é a única criança na casa. Nando levantou-se, espreguiçou-se com as mãos para o alto, deu mais uma volta no quarto passando pelo armário, parando no interruptor, ligando e desligando a luz, entediado.
Passou pelo armário de novo. Como quem não quer nada, abriu uma porta do seu atual companheiro de tédio. “Não devia” balbuciou, querendo colocar um certo juízo em si mesmo, já que sabia que não deveria abrir ou pegar nada de ninguém sem permissão.

Depois de uns 4 segundos de dúvida, abriu totalmente a porta revelando apenas umas gavetas. Já sem pudores, abriu outra porta. Nesta, tinha algo como um espaço para colocar os sapatos, cujo tampo ficava uns 40 centímetros mais baixo que sua altura. Por um tempo apoiou-se no tampo, olhou alguns vestidos de sua avó e não viu nada de muito revelador. Não havia ali um livro velho, um porta-retratos, um baú ou qualquer coisa que pudesse gerar algum interesse nele. Nada. Meio que chateado, mas sem admitir para si mesmo, já que não era mais alguém que “dava asas à imaginação”, sentou-se no lugar dos sapatos, embaixo do tampo. Deixou que as portas do armário se fechassem naturalmente. Olhou pela fresta que sobrou por um tempo vendo a cama com colchão de molas de sua avó. Sentiu-se meio sufocado, desconfortavelmente acomodado.
Sem muito drama caiu no sono.

Acordou.
Abriu os olhos, mas tudo continuava escuro. A porta havia se fechado. Com os pés Nando tentava empurrar as portas do armário, mas como estava todo comprimido debaixo do tampo, não tinha espaço par mover as pernas direito e não conseguia muita coisa, nem mesmo fazer barulho para chamar alguém.
Pensou em gritar, não o fez.
As pernas começaram a doer, depois a formigar. Com um quase medo de um menino de nove anos e meio – e não de dez – Nando começou a querer soluçar. Um pouco sem ar, cansado, suado, derramou uma lágrima resistida.
“E agora?”

Ainda que estivesse no escuro quase total, fechou os olhos. Preto. Respirou, contraiu os olhos o mais que podia. Preto. Puxou o oxigênio que não existia ali. Sua cabeça doía e sua alma mais que seu corpo precisava respirar. Azul escuro. Fechou sua mão direita como se segurasse algo começou a riscar a perna com a unha. Azul. Riscava mais forte e mais rápido, seu dedo ia e vinha na extensão que alcançava da sua coxa. Azul com manchas brancas. Olhos cada vez mais apertados e um leve refresco na pele do rosto. Azul com manchas e pontos brancos. O refresco aumentava na sensação de uma brisa e os dedos diminuíam o ritmo. Céu, nuvens e estrelas. Sentia até seu cabelo balançar levemente, seus dedos agora pincelavam a perna. Céu, nuvem, estrelas, vento, cometas, planetas. Olhos suavemente fechados, enquanto sorria.
Preto.
Branco.
“Achei você!” falou a mãe – “o que é que você está fazendo aí? podia ter sufocado”. Com olhos inchados pelo sono e alguma lágrima, Nando olhava, mas ainda não respondia. “Ele está bem” tranquilizou a avó. “Só um pouco cansado, mas a vó guardou uma surpresa pra você, meu filho.” Enquanto, levava Nando até a cozinha, a avó o surpreendeu dizendo “eu sei o que você estava fazendo lá, Nando!” Com a apreensão de quem acabava de ser pego o menino baixou a cabeça esperando a continuação da bronca “Você estava tomando um ar! Nada como um bom oxigênio para um rapaz de 10 anos de idade!” “E meio“ pensou Nando, “ dez anos e meio”.
Quatro anos depois, num dos dias difíceis da época, Nando tentou entrar no armário que se chama de embutido, outra vez.
Infelizmente ele já não cabia mais ali.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Noites em que estou cheia

Naquela noite eu estava cheia. Na verdade estava e não estava, como explicarei a seguir. Havia pelo menos umas mil pessoas ali, das quais apenas duas me agraciaram com a sua atenção. Engraçado, geralmente quando me apresento assim, tenho visibilidade da mídia, dos sábios e dos símplices. Mas naquele lugar não. Novecentas e noventa e oito pessoas não quiseram saber. Só tive dois espectadores. Às vezes é melhor ter a atenção total de duas pessoas do que inúmeros olhares só que distantes.

E foi assim, importei-me apenas com minha seleta e atenciosa platéia. Antes que minha parceira de palco se aproximasse, antes que nosso iluminador projetasse em mim sua sombra, decidi: “dar-lhes-ei uma atuação soberba que irá inspirá-los e modificar suas vidas para sempre”. Meus companheiros de Trupe Celeste e eu estávamos particularmente radiantes em nossa atuação naquele dia. Nada como um motivo além do simples ofício, além do dom natural para realizar alguma coisa.

Os dois da platéia ficaram atentos em nós, via-os conversando por frases curtas, elogiando-nos pela execução do espetáculo que oferecíamos. Enquanto atuávamos percebia neles um espanto pela falta de platéia ali. Como que se nada entendessem, olhavam dos lados e viam pessoas dispersas em suas preocupações cotidianas, em suas pressas, em suas programações e compromissos, num burburinho contínuo perdendo o maravilhoso fenômeno que realizávamos.

Foi nesse minuto que o meu desejo se realizou, e suas vidas começaram a mudar para sempre. Quando novamente voltaram sua atenção para nós, todos os outros que estavam ao seu lado desapareceram. Não havia mais burburinho, gente correndo para chegar em algum lugar, resolver alguma coisa ou seja lá o que for. Estavam a sós, conosco. Pelos minutos que se seguiam, os maravilhamos, os inspiramos, os excitamos, fizemos com que levitassem (sim nós somos muito bons no que fazemos, se é o que você está pensando) Fizemos com que eles apenas aproveitassem de nós e se percebessem.

No final de nossa apresentação ficou a certeza de um ótimo trabalho, vimos em seus olhos.

Como disse antes, naquela noite eu estava cheia, estava mesmo, fiquei à sombra para aparecer mais. Dei espetáculo para dois que se tornaram um, tempos depois. Sem falsa modéstia ajudei-os nisto, aliás, presto esse serviço desde o início de minha carreira. Mesmo quando me apresento de maneira mais modesta, do que naquele dia, isso acontece. Também não é todo dia que dá para gente fazer um Eclipse. O que importa é que sempre vou me lembrar daqueles dois, pois sei que eles sempre se lembram de mim, me admiram em dias, ou melhor, noites, como a de hoje.
Noites em que estou cheia.
Feliz dia dos namorados, Cyn

sábado, 6 de junho de 2009

Um desenho por semana para um mundo mais bacana II

Vou TENTAR fazer valer o tíulo mas o 2° já ta entrando aos 47 do segundo tempo, quase que " a semana" já era...
Esse pode ser considerado um BusDraws também por motivos óbvios.

Rapidão numa viagem, ficou com mó cara de estampa de camiseta...



quinta-feira, 4 de junho de 2009

A boa e velha espera II - reflexos e uma greve

Para tudo agente tem que esperar, mas às vezes enche a paciência. Principalmente quando é por causa de uma greve. Sem julgar culpados e inocentes, quem é prejudicado a gente sabe. E depois que acabou essa começaram (e continuam) mais duas paralizações na cosmopolita cidade de Campinas. E agora nese exato momento em que você lê, tem gente esperando nas escolas, hospitais, postos de saúde...

A boa e velha espera - reflexos de uma greve from Jean Marcel on Vimeo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O que é que se pode fazer

Como é que um air bus some? É simplesmente louco uma coisa dessas numa época em que qualquer pessoa está conectada o tempo todo, a tudo, em que se fala ao celular em continentes diferentes, em que se vê o interlocutor de um laptop ou mesmo do telefone móvel, esteja onde ele estiver. Época de câmeras por todos os lados, grampos, radares, satélites. Como assim um avião daquele tamanho desaparece e perde o contato? É insano e mostra o tamanho do ser-humano. Não adianta a tecnologia, conhecimento, pesquisa. Nós temos limites. Não sabemos tudo, e no final das contas podemos muito pouco.

Nossa ciência nos ajuda e nos atrapalha. Encurta as distâncias (como os anúncios de celulares nos prometem) e as alonga na mesma medida. Facilita nossa vida, poupa o nosso tempo de trabalho e nos faz trabalhar mais ainda.

E tudo isso não é de agora. No livro a Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, o personagem Jacinto, no século 19 vê-se dependente das novidades científicas, de utilidades domésticas modernas para a época, mas do mesmo jeito percebe que nenhuma delas resolve sua vida e o conforto que elas dão às vezes é diretamente proporcional às dores de cabeça que rendem. Ao mesmo tempo em que ama a “modernidade” se decepciona com ela.

Não há tecnologia de ponta suficiente que nos resolva tudo. Continuamos pequenos, e não importa o quanto sejamos unidos globalmente, ou quanto nosso conhecimento se multiplique nosso poder é pouco. As coisas irrefutáveis da vida continuam do mesmo modo.

Muito se fala em ser simples, viver de maneira simples, ter prazeres simples. Mas parece que ser simples nesse mundo é muito complicado. Nós estamos sempre correndo atrás do vento.
E é nessas horas que deve chegar aos nossos ouvidos “Olhai os lírios do campo...”.
Creio que ainda vale a pena tentar.

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