UM DESENHO POR SEMANA

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Conto - Ônibus cheio, só com música


Segunda-feira, 07h05. Rua, passo, passo, passo. Um moço sai da padaria com um café tampado. Não como aqueles de filme americano. Era de plástico, menor, mais fraquinho. O moço carregava também um saquinho com salgados, ou pão de queijo, ou pão francês. Não dava para saber. Uma moça vende aquele jornal barato, cinqüenta centavos. Parece que sai bem. Passo, passo, ponto. Ela e mais três pessoas lá. Uma enfermeira, um vendedor de carros e uma operadora de caixa de padaria. Ninguém se apresentou. Ela imaginava há tempos. Uniformes, os pontos em que desciam, acusavam ou pelo menos deixavam aberturas para suas suposições. Jogos de ônibus. Adivinhar o que cada um faz, onde trabalha, se tem namorada ou namorado, se aquela é casada, se sustenta três filhos com um salário de R$ 600,00. "E aquelas meninas? Teriam, voltado tarde da balada ontem? é, por isso a cara de sono". Qualquer coisa que pudesse ser inventada para abreviar a espera no ponto e a posterior viagem valia a pena. Jogos de ônibus.

O jogo de adivinhar o que os passageiros do coletivo faziam, por que estavam lá, era o preferido. Com o tempo as personagens que se repetiam por causa dos horários e trajeto de sempre, passavam a ter cada qual uma história de vida, razões e motivos para estarem lá, dramas e alegrias compilados dentro de atos que terminavam quando ela chegava ao seu destino, na ida ou na volta.

Outra distração, ou jogo criado por ela, era o de se imaginar num plano cinematográfico, em uma cena de filme. Não era vaidosa. Pelo menos, não mais do que qualquer garota de sua idade, talvez até um pouco menos do que a maioria delas. Não queria como diriam em sua escola “se aparecer”. Se via como uma personagem num filme, em uma cena em que a moça está no ônibus. “Câmera pega lá fora, corre o movimento do ônibus. Câmera me pega, da cintura pra cima – dá pra ver que estou em pé me segurando para não cair com os solvancos do ônibus . Câmera pega meu rosto, de perfil olhando pra fora. Parece que estou pensando”. Uma diretora de si mesma. Uma espectadora de si mesma.

Mas não se sabia assim. Apenas, fazia e assistia a um filme para sua distração. Um dos tais jogos. Tentava aproveitar aquelas horas perdidas em trânsito do seu jeito. Se, inventava histórias para os outros, criava também planos, edições e atuações, para si.
Escrevia um livro, uma peça, fazia um filme. Horas em pé, esperando, parada, andando, rendiam histórias despretensiosas apenas com o fim de agüentar a rotina diária.

Mas havia dias em que nenhuma criação, vinha à sua mente. Não conseguia, jogar, ver planos de filme, pensar em nada. E esses dias eram aqueles em que depois de atrasados, os ônibus vinham cheios, e pioravam a cada ponto, com a subida dos personagens que iam se acumulando. Mas nesses dias os personagens não tinham cara, filho, namorado. Nesses dias eles não tinham história alguma. Eles apenas se acotovelavam, oprimiam e eram oprimidos, pisavam nos pés de outros e tinham os pés pisados. Não dava pra pensar em nada, a não ser respirar, conseguir ficar equilibrado em algum canto. Ainda mais ela, do alto de seu 1,60 de altura.

Sufoco. Respiração de 70 pessoas ao mesmo tempo. Nenhum tempo para pensar, nenhuma força para pensar. Só resta a ela apertar o “play” e colocar o volume no máximo, o que, com a quantidade de barulhos que a cercavam, não significa muita coisa. Em dias assim, ela e outros do elenco respiram melhor com os ouvidos, seja qual for a qualidade e procedência do oxigênio. E toca, toca, “e toca para o destino motorista, não cabe mais ninguém no ônibus”. Não cabe mais nada na mente. Até que o ato enfim deve acabar. Era para demorar uma hora e quinze de trajeto. Demorou mais 25 minutos.
Porta abre, todo mundo quer descer ao mesmo tempo. Ela também, mas não precisa se esforçar, vai ser levada junto com os outros. Do canto que havia achado, de empurrão em empurrão, chegou lá. Degrau, degrau, degrau, chão. Ouvindo melhor o mp3 salvador, respirando o oxigênio mixado, aspira e correndo atrasada, solta o desabafo:
- ônibus cheio só com música!
Fim do ato.
Sobe BG – Plano de Conjunto – Ela correndo entre várias pessoas
Fade out


Trilha sonora: Escolha 30 músicas, o seu próprio suprimento de oxigênio suficiente para uma viagem de 1h40min.

Um comentário:

  1. www.juniorvaller.com4 de março de 2008 01:14

    Car••••, com todo respeito!
    O sr. acordou inspirado heim!

    Preciso recarregar o meu MP3 ou MP4, seja lá o que for, pois nesse ônibus da linha vida só entro se tiver música!

    Linha 171 !!!

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