UM DESENHO POR SEMANA

quinta-feira, 20 de março de 2008

O Desafio da Colomba

Na mesa da cozinha da empresa, onde o pessoal toma o cafezinho, estava ela, fechada a espera de alguém que a experimentasse. Com a xícara de café na mão, percebia que havia uma tensão ali. A caixa me desafiava. Em vermelho estava:
“Agora + prático!
Mais molhadinho
“Mais fácil de servir”

Mais fácil de servir? Como assim? Antes era difícil? Prestei atenção na imagem da guloseima impressa na caixa. A colomba estava oval. Sim, oval. Como uma bola de hugby, como aquele salão da Casa Branca. Enfim, oval como um ovo. O que tem isso?
Se bem me lembro, o formato das colombas era o de uma pomba. Mas agora já não é mais. Pelo menos as industrializadas. “Mais fácil de servir”. Isso não saía da minha mente. Era o desafio.

No dia anterior, em supermercado, já havia percebido algo diferente na embalagem, e até tinha lido o aviso que chamava atenção para a “novidade”. Mas na pressa de entrar na quilométrica fila, para pagar uns chocolatinhos que ia comprar, não pensei demais naquilo. Certo, não parece ter mesmo muito o que pensar. Mas ali já havia ficado alguma coisa.

De volta à mesa, como no duelo de Henry Fonda e Charles Bronson em Era uma vez no Oeste, ficamos nos olhando. Aliás, em minha mente até pude ouvir a gaita que o senhor Bronson tocava no filme. Ou era a cadeira de alguém arrastando no chão, afinal logo ao lado as pessoas trabalhavam normalmente.

Comecei a pensar, que realmente o formato oval era mais fácil de servir. Ninguém tira o papel da colomba, mas se quisesse tirar, estava bem mais fácil. Lembrei que no outro formato a massa ficava grudada nas reentrâncias e saliências da silhueta da ave, o que provavelmente irritava os consumidores. No final tinha que, com a ajuda de uma colher escavar os pedaços grudados, o que creio virou uma tradição, uma curtição, como raspar o fundo da tigela no qual um bolo havia sido batido por sua mãe quando você é criança.
Marketing. Pesquisa. Consumidor. Seria isso? Atender às necessidades do público alvo?
Ou será o contrário? “Mais fácil de servir” poderia querer dizer “nós gastamos menos dinheiro na feitura da embalagem, menos tempo (o que como todo mundo sabe, também quer dizer dinheiro!), e você ganha uma embalagem prática para colocar à mesa do café da tarde no domingo de páscoa para felicidade e conforto de sua família. Quer dizer, come aí e não reclama!”

Percebi que os símbolos todos se esvaíram. Não sobrou muita coisa. Não que isso seja sempre ruim. As coisas mudam, evoluem, para o bem e para o mal. Mas o que importava ter alguma referência à data comemorativa? Aliás, a gente come pela tradição, mas a comida não lembra em nada o período. O que explica o bolo ser vendido na páscoa e um pouquinho depois dela. Exatamente como seu irmão gêmeo, o panetone, ou os seus colegas de formato, os ovos de páscoa. Talvez sejam os nossos costumes. Essa coisa da comida ter 318 significados é coisa das culturas orientais. No caso da páscoa, da tradição judaica. Tudo bem, então abaixo aos símbolos. Mas, o que é que estamos tentando lembrar com esse feriado mesmo?

“Agora + prático”. A colomba me chamou para a briga e quando estava quase acabando com toda a sua empáfia de produto com a embalagem “mais fácil de servir”, uma colega de trabalho chegou, falou alguma coisa, abriu a caixa e, sem nenhum pudor, cortou o panetone de páscoa e levou o naco para seu local de trabalho. Era como se alguém chegasse no meio de um duelo e tirasse um dos participantes para tomar um café no bar da esquina.
Depois daquilo, fui trazido à normalidade do mundo, os cinco minuto de olhos nos olhos com a embalagem acabaram, e achando que o duelo também chegara ao fim, peguei a faca, cortei um pedaço, experimentei e pensei “realmente está mais molhadinho... e a embalagem ta bem mais fácil de servir!”.

Cortei outra fatia, agora mais substanciosa, e antes de sair, dei números finais ao nosso faroeste gastronômico-antropo-mercadológico.
”Ok, empatamos. Dois a dois ta bom pra você?”
Surpreendentemente ela não respondeu. Quem cala consente.


Era uma vez no Oeste, 1968 - D. Sergio Leoni

2 comentários:

  1. www.juniorvaller.com24 de março de 2008 09:57

    vou aproveitar as migalhas da minha colomba pascal. abraço!

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  2. Oi Jean, estava visitando seu blog e li esse post e achei muito interessante, na verdade p/ mim, tb não importa se a colomba está oval ou enformato de pomba (nem gosto de colomba). Mas as coisas ultimamente tem se perdido os valores, tudo pelo consumismo.
    Aqui em casa agora com as crianças vejo muito isso. Na nossa época quando éramos crianças, não se tinha opções de ovos de pascoa e o hoje as crianças se perdem em tantas que na verdade nem tão interessadas no chocolate e sim no brinde.
    São situações que mudam os valores e nós como cristãos temos que tomar cuidado com essas mudanças.

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