UM DESENHO POR SEMANA

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sábado, 4 de julho de 2015

Vejo vocês no futuro - O desafio

Hoje decidi que vou desafiar meu “eu” futuro. Se você que está lendo é meu “eu” futuro, deve estar irritado comigo agora. Ou talvez esteja me agradecendo por te obrigar a fazer isso. Agora se você não é  meu “eu” futuro não sabe o que está acontecendo. Assim sendo, deixe-me explicar.
Em meio a conversas com amigos e vendo como andam as coisas com a galera jovenzona acima dos 35, percebi diversas mudanças nos participantes da faixa etária antigamente chamada de meia idade. Como todos sabem, de uns tempos pra cá as pessoas começaram a casar e sair da casa dos pais mais tarde. A formação, a pós-formação, a subida de cargo, o apê comprado e o carrão na garagem surgem antes ainda do derradeiro “ sim”, que hoje em dia nem é tão definitivo assim. Os filhos que se sucedem são poucos e chegam depois dos 34, 35 anos, quando, no caso dos nossos pais, já se estava fechando a fábrica no terceiro ou quarto.
Essas diferenças, provenientes de mudanças significativas que ocorreram com eles (nossos pais) fizeram de nós uma geração de transição. Não vou aqui nomear as gerações com letras (x, y, z).
Por essas e outras razões (por exemplo, a expectativa de vida que é maior) dizem por aí que os 40 são os novos 30. Hoje os quarentões (perdoe-me, “eu” futuro) iniciam coisas, muito além do ditado que dizia que a vida começa nessa faixa. Enquanto nossos pais pensavam no plano de carreira, na aposentadoria, nós estamos ainda tentando criar negócios, realizar projetos e, quem sabe, fazer mais uma pós. E é aí que chegamos a mim, hoje, exatamente hoje, dia 5 de julho de 2015, meu aniversário de 38 anos. Com todas essas percepções, novos começos etc, pensei se eu entraria na tal crise da meia idade, ou se já não estava nela. Se não iria viajar na maionese e me vestir como moleque, ou se de repente, ainda não tinha parado de fazer isso. Se meu caráter de artista, com recauchutagem publicitária não me fazia apenas um tiozinho metido a quase jovem de blaser com camiseta hipster, boina virada pra trás e tênis All star (por acaso eu não tenho nenhuma das peças). Se meu filho de dez meses não me fazia achar que era mais jovem ou mais velho do que eu sou e por fim, se nos próximos anos ia passar por um processo de “quarentização” (mil trezentos e dezenove perdões por isso).
Imerso nesses pensamentos tive a ideia que espero que meu “eu futuro esteja no processo de concretização enquanto me lê daqui há dois anos: pensar mais profundamente nessas questões enquanto as vivo, expressá-las em contos, poemas e de repente desenhos até o fatídico 5 de julho de 2017 e publicá-las em um livro. Calma, “eu” futuro, já que você as está ou estará vivendo  até completar seus 40 anos, pode fechar o projeto, compilado, editado e embalado até o ano 41. Assim, fica aqui o desafio triplo:
1. Para mim - viver e expressar o que acontece na perspectiva da minha idade no mundo atual, por aqui, de tempos em tempos.
2. Para meu “eu futuro - Publicar isso tudo (tenha coragem, homem, escute o moleque aqui, manda ver!)
3. Para você que honra este doidivanas, lendo esse delírio oitentista até o fim - Continuar lendo e de repente encher a paciência do “eu” futuro, que no caso será “eu” presente novamente (“que barra pesada, Doutor”) pra levar esse desafio a cabo.
Desafios lançados, aqui e agora me despeço. 
Abraços a todos e “Vejo vocês no futuro”.
Ah, parabéns pra vocês, “eu” com 39 e “eu” com 40.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Pense em mim e logo eu existo


Eu não conhecia o Cristiano Araújo. Não é que eu nunca estive com ele, eu nunca o tinha visto até aquela triste manhã para sua família, depois da qual sua foto não parou de pular na minha timeline e também em quase qualquer programa de TV.


Eu não conhecia Cristiano Araújo, eu  nunca o tinha visto. As dezenas de matérias que se sucederam nos mais diversos meios, me fizeram descobrir que eu havia escutado sim uma música dele. Uma canção que era tocada em uma novela. Lembrei da música, não lembrei de Cristiano Araújo. Eu não o conhecia, eu nunca o tinha visto.


O seu nome não me era nem familiar. Se alguém o pronunciasse pra mim, soaria como qualquer outro dos prováveis milhares de Cristianos Araújos que foram registrados nesse país. Aliás, eu nem sei se esse era mesmo o nome de batismo dele.


Cristiano Araújo seria mais um infeliz das etatísticas do violento trânsito brasileiro, não fosse a repetição dos veículos midiáticos. Veículos que todas as manhãs me mostram acidentes, mortes, gente sofrendo, mas pelas quais solto um apenas um “ai” quando a cena é mais forte ou quando se relaciona com algo mais perto de mim, como um filho, a perda da esposa etc. Mesmo assim o sentimento dura pouco e é facilmente suprimido pelos gols da rodada e as más notícias da economia na TV, ou a discussão engajada do momento nas redes sociais. E assim  a protocompaixão se dissipa. Aconteceria o mesmo com Cristiano Araújo, não fosse a repetição da notícia, inclusive do telejornal que o fazia enquanto escrevia esse texto. A repetição se dava porquê Cristiano Araujo era muito conhecido, fazia muito sucesso. Mas para mim ele não era ninguém. Cristiano Araújo, cantor de sucesso, não existia.


Mas não é porquê para  mim ele não existia que sua importância não era grande para os seus e muitos outros. Da mesma forma acontece com todos aqueles que eu também não conheço cujas vidas se encerram, são incrivelmente difícieis, ou apenas sofrem das agonias que todos nós vivemos. Assim acontece comigo para muito gente, para muitos eu não devo ser nem mesmo  uma ideia.
Existir, no caso do outro, depende da nossa conciência dele. Do nosso conhecer de detalhes, da nossa aproximação por similaridades ou do afastar pelo excesso de contrastes. O outro só existe quando temos um número suficiente de informações que ocupam um espaço relevante em nosso cérebro. Existir, a essa medida, é em certo modo uma corruptela cartesiana; se penso no outro, ele de certa forma está em mim, tenho conhecimento dele e, assim, ele é, ele existe.


Essa existência baseada na consciência é o princípio do bom e do mal no homem em relação ao próximo. Saber ou não saber, é o limite do ignorar ou amar. E está aí a base para todos os relacionamentos, sejam eles românticos, filiais, fraternos, de amizade ou de admiração. O quanto conhecemos de uma pessoa determina o quanto ela existe em nós. Esse limite é também a base para a relação com o indivíduo que se vê mas não se conhece e sofre nas ruas. É a base para a compaixão que se tem por uma pessoa que morre em seu bairro, vítima de violência, mas não para centenas que perdem a vida numa guerra civil em um país da África. A quantidade de informação determina a importância ou até a existência de um fato.

Essa é uma boa plataforma para analisarmos o papel da imprensa e da mídia sobre a existência de pessoas, situações e realidades que não chegam ou chegam pela metade até nós.
É também uma ótima plataforma para sabermos quem realmente existe pra nós e pra quem nós existimos. E a oportuna questão que cutuca a mente e que pode trazer à existência mais do que há nos limites dos nossos portões, ideologias, círculos sociais ou perfis virtuais. Basta perguntar.
E que Deus tenha misericórdia dos familiares de quem eu nem sabia da existência.

  

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O bloquinho do fundo do baú

Ontem descobri o porquê na era dos tablets e smartphones ainda uso o bloquinho. Não, não é pelo charme. É por uma questão de história, ou melhor da minha história. É pelo registro duro, pela lembrança contada, mas também física, densa, palpável. Eles, os bloquinhos, me são tão caros como o são relíquias, do fundo do baú mesmo. Se há aqui algum tom nostálgico, desejando o poético, não é proposital (percebo isto enquanto escrevo).

O bloco conta uma história, às vezes desfragmentada, é verdade. Um pouco do seu sentimento dali, de uma anotação daqui, uma lista de compra, um rabisco despreocupado. Mas no final, cada folha relata os fatos ou sensações daquele momento, e no todo é possível montar o esqueleto do dinossauro ali impresso. De uma capa a outra estão dicas, pegadas, indícios de uma época, tenha ela ocorrido há dez anos, dois ou um mês. Essa é a diferença para um diário, no qual o registro é proposital. No bloquinho, o registro acontece, assim, meio impressionista.


Escrevo esse texto num deles, não por nada. A ideia me veio em uma padaria, à espera de um amigo. Estou aqui na companhia dele, o bloquinho, no clima do caderno do Toquinho esquecido no fundo da mochila. Abri-o. Na busca de folhas brancas, acabei vendo os primeiros registros do planejamento do Purê ali. A decisão de tornar um projeto em algo real, fundamentar suas bases, estipular passos, criar nome, traduzir o conceito em palavra, ícone etc. Decidi continuar a ver o que mais tinha ali. 

Outras folhas lembraram-me de outras viagens, particularmente uma de verdade, feita no início de 2013. Detalhes e impressões anotadas em forma de poemas, desenhos ou frases soltas. Sorri, pois algumas delas talvez eu perdesse não fosse o bloquinho. As centenas de fotos e videos não conseguiram registrar o que minha mente percebeu através de cada sentido. Os rabiscos durante os trajetos foram mais próximos que os cliques apressados de turista deslumbrado com cada atração sonhada e agora vivida.

No mesmo bloquinho pude ver a evolução do meu sobrinho de sete anos, pois, desde que ele conseguiu pegar em uma caneta vem escrevendo e ilustrando lindamente em meus cadernos. Vi os registros de contos, dos mal passados aos crus. Vi planos feitos e falhos, rascunhos que não foram pra frente, rabiscos que deram errado no primeiro toque do lápis no papel. Vi até momentos sem pretensão, jogos para a diversão pura e simples, listas de natal, de compras.

Nesse exemplar em particular, vi  que os tais bloquinhos que chamam por aí de moleskine, não são sacros, profissionais, bacanudos ou intelectuais. São apenas cadernos de anotações e, independente de capas estilo escolar, de couro, vintage, ilustradas por designers ou fabricadas por talentosos artesãos, todos tem o mesmo fim: ser completamente rabiscado, sem dó, com aquilo que você tem na cabeça, nos olhos e nas mãos. Afinal são só bloquinhos. Vai saber a razão de eu gostar tanto deles.  

ps. Esse da foto foi feito pela Regina
ps2. O texto foi gestado no bloquinho há uns 7 meses, redigido na nuvem há uns três ou quatro e postado só agora.  Se ele tem registros mais de 2013 do que de 2014, essa demora em postar é, em certa medida um registro do ano corrente.
ps3. Da mesma forma, no post original não há menção ao meu filho, hoje com 3 meses. Ele não está no bloquinho, senão pela percepção louca de realizar muitas coisas antes de seu nascimento. Assim, esse é um bloquinho pré-Pedro.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ilustres e desconhecidos



Eu penso diferente de você. E também penso igual, da mesma forma.
Não é contraditório ainda que pareça. Eu penso como você no que é comum a nós, em muitas coisas que queremos. E penso diferente na forma de fazer. Quando penso de outra forma não diminuo quem você é ou a importância que tem pra mim. Isso porque confronto o teu discurso com a prática. Se está coerente com o que você diz, se reflete o que você sente por mim, pelos meus, pelos outros, tudo bem. Eu escolho diferente de você, porque somos pessoas diferentes, porque apesar de termos nossos laços no nível que são, temos histórias diferentes. Diferente e igual, que coisa barroca, que coisa adolescente. Vivi outras coisas, vi outro mundo, senti aquilo que não chegou perto de você, e não experimentei o que está gravado na sua memória. Dessa forma, eu não posso te diminuir, pois, apesar de te conhecer, não sei quem você é no todo. E tem mais: por que eu faria isso? Eu gosto de você. E você também não me quer mal, por isso não tomo como ofensa o que você diz sobre o que eu penso. O que me entristece, no entanto, é você não me dar o crédito de ser a pessoa que você conhece, por causa daquilo em que acredito e expresso. Eu sei que você aprecia estar comigo, quer dizer, eu acho. Talvez você não goste. Eu sei que você está ligado a mim em algum nível, por algum motivo, e sente por algo bom. Tá, eu não sei disso. Pois, se soubesse não estaria dizendo isso. Talvez eu apenas esteja exercendo a esperança de que seja verdade. Que existe uma importância e que no final somos o que somos e que você não me ofende por que quer. De repente você está sendo movido por uma onda ou por como sua vida está. Talvez todas estas dúvidas só mostrem como eu deveria me importar mais com você, suas dores e alegrias, além da imagem que todo mundo vê. Talvez. Me perdoe se fico no nível raso. Mas, você sabe, a gente gosta de um pouco de privacidade certas vezes, imagino que você também. Caramba, estou me perdendo.
A verdade é que se você me conhecesse mesmo não diria tudo o que diz sobre o que eu penso. Você diria “nossa, penso diferente, assim, assado...não que eu vá concordar, mas me diga mais sobre como você vê isso.”
Talvez, assim você se acalmasse, não me odiasse por tabela, ou percebesse que o ódio que tem é só uma descarga de energia, um desafogo por tudo de ruim que o mundo, e não esse ou aquele pensamento, nos apresenta. É por isso que estou falando com você. Porque você merece o descanso, merece não enlouquecer, merece desabafar e ser feliz. E quando se sentir oprimido pela vida nas situações mais corriqueiras ou naquelas mais graves, eu devo estar aqui. A qualquer hora.
Afinal, sou ou não seu amigo? Ou sou apenas um quadradinho que pula na sua timeline? (se é que você não desabilitou o meu feed).
Perdão por postar público. Qualquer coisa me chama in box.

   

terça-feira, 10 de junho de 2014

Salvo pela Sandra Bullock.





Esse é mais um daqueles posts com um título que tem a ver com o texto, mas cujo texto tem menos a ver com o título do que se poderia imaginar. Calma.

Em minha, quem sabe nossa, saga em busca da sanidade em meio à confusão pós-moderna tupiniquim, tenho evitado as polêmicas. Não, amigos, não parei de ler o noticiário ou me informar em diferentes meios e veículos, independente de sua isenção ou amor declarado a uma ideologia, problemas de uma classe social, partido político, vertente religiosa ou time de futebol. Tenho tentado unicamente desviar-me de vãs conversações que não movem moinhos e só causam dor. Confesso, no entanto, que semana passada caí em tentação no afã de dar uma opinião dissonante (não tenho orgulho dessa dissonância, apenas o fato é de que naquele contexto distoava da opinião da maioria). Esqueci-me de meu posicionamento pró-sanidade mental e cai na armadilha da minha indignação de facebook.
No fim de semana agitado de preparações pré-natais, idas ao centro da cidade, shoppings, feiras. brechós de gestante e casa das avós, perdi meu tempo com isso.  
Enxerguei o deslize (e sofri por causa dele) depois da tréplica em resposta a uma viagem na maionese sem precedentes. Percebi que o errado ali era eu, por entrar na arena com a intenção de não pegar em armas, mas flertando com elas, me juntando a quem gosta da luta pela luta e não pela solução, fazendo assim parte da ira maniqueísta e inócua. Me senti bobo. Quer mais incoerência que isso? Não se combate fogo com fogo.


Tá, mas e a Sandra?
Com tantas coisa pra pensar e fazer, fiquei com o erro na cabeça (é, eu sei) até o domingo à noite. Minha esposa começava a ver Miss Simpatia, o filme que definitivamente levava a Sra. Bullock ao estrelato. Na leveza de uma comédia Hollywoodiana de 14 anos atrás terminei meu dia, ainda com a cizânia em minha mente. Cama, cabeça no travesseiro, escuro, olhos fechados e...POLÊMICA! Sim, pensei na copa, na Dilma, no Aécio, na Marina, no Eduardo, no senado, na câmara, na lei da palmada, nos evangélicos, na copa, nos estrangeiros, nos erros, nos acertos, meus e dos outros, dos brasileiros, dos estrangeiros, nos pobres, nos ricos, nos médios, nos oligopólios, no capitalismo, no socialismo, na segunda-feira, na necessidade de dormir, dormir, dormir.
“Mas e a discussão, como fui cair naquilo, preciso dormir, preciso pensar em outra coisa que não tenha nada a ver com nada...qual foi a última coisa que eu vi…Sandra Bullock. Qual foi o primeiro filme que eu vi dela? Aliás, quantos filmes eu vi? Vamos lá: Velocidade máxima 1 e 2, nossa, o segundo é aquele com o Carlinhos Brown cantando, é muito ruim. Judge Dredd, com o negócio das três conchas, Tacobell e etc, aí teve Casa no Lago, os dois Miss Simpatia,  Enquanto você dormia, outra comédia romântica com o Ben Afleck que ela era maluquinha, o filme que ela ganhou o Oscar (bocejo) como é o nome mesmo? Deixa pra lá...ah, e é claro, Gravidade...(bocejo) deixa eu ver se tá faltando alg....”


Acordei na manhã da segundona com a certeza de que vi filmes demais dela. Bom, pelo menos dessa vez eles me serviram de alguma coisa. Valeu,  Sandra.





sábado, 8 de março de 2014

Sendo bem objetivo: a mulher.


Não, a mulher não é igual ao homem. E digo mais, nunca vai ser. Dizer o contrário seria a pior das ofensas a elas.
Pensei em minha esposa, minha mãe, minhas irmãs, minhas amigas. Pensei usando o defeito masculino, a posse, o egocentrismo. Meu, eu, meu. Ok, também não é assim. Esse meu não é com sentido de ter alguma coisa. É mais com o fim de estabelecer a particularidade da relação. Por que é isso, relação. Tudo que uma mulher quer é isso (olha eu sendo tão homem novamente, quadradamente taxativo.)


A mulher gosta da relação. Com os filhos, com os pais, com os amigos, com o namorado. Nós homens gostamos é da objetividade, que de objetiva pouco tem. Afinal, estou aqui divagando quando deveria estar escrevendo sobre a mulher, o gênero. “A mulher, o gênero” Isso pareceu título de capítulo do telecurso 2000. Será que ainda passa isso? Aliás, o que está passando na TV agora? Um filme tosco. Dez reprises. Vocês viram a situação na Criméia?


A gente pensa nas coisas sérias. A mulher pensa na relação. Na relação de tudo com qualquer coisa e ao mesmo tempo. A gente é focado. Quando joga videogame ou muda o canal da TV. Exagerei de novo, mas foi só um pouco. Na verdade as mulheres é que são exageradas, no sentimento, no amor, no choro. A gente é bastante, quando doi o dedão do pé. Também adora um superlativo  Adoramos o top, o dez, o fera (ui!). Exageramos quanto ao valor das coisas, das inovações, do dinheiro, do conforto, da conquista, da posse. Olha ela aí, de novo. As mulheres, não nos enganemos, são possessivas, mas sempre na relação. Sim, isso não é bom. E nem poderia ser, a mulher não é perfeita como gênero, aquele do Telecurso. É perfeita conceitualmente, complicadamente, como parceira para nós. Porque nós não somos perfeitos e isso todo mundo sabe. Mas ninguém sabe como elas e ainda assim continuam conosco. Continuam em dias que não são comemorados, ainda que toda vez que um menino de 11 anos consiga chegar numa menina ele comemore. Ainda que muitos homens ainda brinquem de que estão indo pra forca quando casam, quando adorariam dizer que não podem viver sem elas.

Eu por exemplo, estou aqui tentando terminar esse texto sem cair em clichês. Dizer que são fortes, que todo dia é dia delas, blá, blá, blá. Talvez me falte a coragem para assumir o lugar comum. Talvez me falte a objetividade, a sabedoria, a humildade de me entregar a todas repetições mais lidas, vistas e cantadas.    

Então, só me resta dizer obrigado às mulheres por serem mulheres e tudo que isso engloba: das curvas à irracionalidade. Da multiplicidade à sensibilidade. Da alta resistência à dor, à paciência com nossa mente limitada. O resto é coisa de poeta e esses caras não são nada objetivos.



quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A copa, o povo e o direito aos paranauê


Outro dia percebi que uma nova gíria invade o meu mundo. Sim, o meu, porque eu não sei se você que lê já ouviu a expressão “paranauê”. Se já ouviu estamos juntos, se já usou, me perdoe por esse momento “o que essa juventude está falando” que tive agora nos meus tenros 36 anos de idade.

Antes um canto de capoeira, o ritmo para a luta, paranauê, segundo os usos feitos próximos a mim, pode ter diversos significados. Você pode usar como “coisa”. “Pega lá os paranauê pra fazer a pizza”. Pode usar como preferência: “cada um com os seus paranauê”. Pode substituir por particularidades, características, ou macetes: “você sabe os paranauê de funcionamento do chrome?” E a mais usada, (veja aqui as origens da palavra e do meme) a de ressaltar que alguém sabe muito fazer algo "esse cara manja dos paranauê"

Isto posto, usarei a gíria do momento  nesse texto. Veja se você consegue identificar cada paranauê, digo, cada tipo de uso.

A copa vai acontecer. Manifestações vão acontecer. Li textos falando do atraso das manifestações. Que a copa não começa daqui a 4 meses, mas já começou há quase 7 anos, quando do anúncio. Assim como o governo federal, e também os governos estaduais e municipais demoraram a resolver questões de estádios, mobilidade urbana, aeroportos etc, o povo demorou a reclamar seus paranauês. Concordo, mesmo, sério, de verdade. Mas a demora não tira o direito de reclamar. Assim como eleger alguém não tira o direito de cobrar esse mesmo alguém. Há um movimento pelas não manifestações durante o campeonato, ou pela desvalorização das ações. Tá, não é bem um movimento, mas uma tendência.

Pensando na relevância dessa atitude tardia, há outro paranauê em questão, a idade dos manifestantes. Se a maioria tiver entre 20 a 28 anos é um contingente formado por pessoas que na época do anúncio da copa, tinha entre 14 e 22 anos, ou seja, a maioria nem adulta era e dessa forma é natural que a revolta chegue agora, motivada também pela primeira saída do sofá ocorrida nas manifestações de junho do ano passado.


Há porém um terceiro lado que une quem critica e quem apoia a manifestação tardia. O aproveitamento político da copa para a situação e das manifestações para a oposição. Estamos todos com as armas nas mãos para condenar qualquer que seja o uso de um e de outro. Como escrevi uma vez, a confusão continua. Direita, esquerda, ideologias defendidas e atacadas, experimentadas, utópicas e desesperançadas, frias e individualistas, coletivas e surreais. Nas redes, uma discussão por hora. Todo mundo é vilão e paladino e quem acha isso é alienado, ou está em cima do muro. Desde junho parece que percebemos que moramos em um país de atrasados. Tudo é muito para mudarmos em tão pouco tempo, Tudo é muito absurdo para questionarmos de maneira querente, isenta, sem defender o paranauê de cada um na hora da discussão. Tudo é muito vergonhoso para o povo ver tudo calado. Atrasados como as obras da copa. Atrasados como a dicotomia esquerda-direita num país rico de miseráveis. 


Nessa de discutir os paranauê ideológicos, já tem até quem não queira que a seleção Brasileira ganhe a copa. Dentro da profundidade abissal dos interesses lindamente desprendidos de cada um, segue fora de foco o desinteresse travestido de preocupação com os paranauê das pessoas, aquelas, cada uma e todas elas, que longe das ideologias, das desculpas, das diferenças, das indiferenças ou alheios a todos os bla bla blas e mimimis querem mesmo é ver quem é quem tem, no final das contas, mais paranauê pra mostrar dentro e fora das quatro linhas.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Meu filho, o não-rei do mundo


Eu não sou pai. Quando digo isso me posiciono como um ser completamente ignorante das dificuldades e esforços concernentes às funções, atribuições e responsabilidades paternas. Na posição de quem vai ter de cuidar propriamente de um filho daqui há 7 meses, ou 30 semanas, como contam os obstetras, observo, escuto e faço minhas auto-análises em um esforço já com o fracasso anunciado de prever minhas reações, desejos e experiências.


Quando falo da minha ignorância, não tem a ver com noites não dormidas, cansaço, paciência com esposa hormonalmente desequilibrada, desejo de fazer outras coisas, ou ainda banhos, trocas de fraldas etc. Falo de sentimentos, de atitudes, de ensinos, de criação mesmo. Muitos ideais que temos, mas não sabemos se vamos mesmo cumprir.


Vi outro dia um artigo compartilhado nas redes sociais com o título "7 comportamentos dos pais que impedirão seus filhos de se tornarem líderes"Obviamente fui ler. A matéria me preocupou menos que o título. Na hora lembrei que segundo 93,5 % dos pais que eu conheço, seus filhos são todos líderes na escola, entre primos ou no condomínio. A coisa do orgulho bobo e natural de pais e mães. Porém,na minha cabeça, pensar na educação da criança para que ela vá ser líder me pareceu algo esquisito, bizarro mesmo. Como disse acima, entendi a matéria mas o título-anzol meu pareceu agressivo e contrário do que me parece ser a tal da educação (e nesse ponto acabo de enfiar a mão num vespeiro). 


Quando penso em quem vou ser para o meu filho, como vou tratá-lo, o que vou ensinar, que exemplo vou dar, minha preocupação nunca nem de perto passou pelo quesito liderança. Talvez seja pelo fato de hoje ele ter apenas 3 centímetros


Ou pode ser porque não é isso que de imediato sonho pra ele ou ela. Sonho que além de portador do combo saúde, ele venha ser uma pessoa na acepção da palavra, Alguém que erre e acerte procurando o acerto. Alguém que se preocupe com os outros, que ame. Que seja seguro de suas convicções, mas não arrogante sobre elas. Alguém que ame a Deus e se relacione com Ele. Alguém que saiba da suas limitações, mas não seja oprimido por elas. Alguém que adore dizer não sei. Alguém que se preocupe e gaste tempo com o que é importante. Que chore quando for a hora, que ria sempre que possível. Alguém que saiba lutar com as armas da paz. Que seja simples como a pomba e prudente como a serpente. Que não seja levado por modismos. E que tudo isso seja gradativo, que seja aprendizado, que seja processo. Que ele seja o profissional que ele quiser e que ele entenda o que isso acarreta. Que ele saiba que tudo na vida são escolhas e que não há desculpas, mas há perdão. Que ele nos perdoe pelos nossos erros e idiossincrasias mais esquisitas impressas em sua educação. Que ele sofra quando tomar pancadas da vida, mas que se levante pra ficar de bem com ela novamente.

Talvez todos esses sonhos, no fim das contas, o ajudem a ser um líder, ou o certifiquem que o melhor é ser um servo, mas o mais importante é que ele seja ele.


Agora, se além de tudo isso, assim, por acaso ele ou ela souber pintar, escrever ou tocar um instrumento bem pra caramba, não vou ficar triste, é claro.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Roupas pra dobrar e um milagre de Natal.


Tudo aconteceu no meio de uma dobrada de calcinha.
Ele chegou do trabalho como todos os dias. Abriu a porta, virou e lá veio a mulher de sua vida recebê-lo com um beijo. Falando assim, parecia a imagem de uma sitcom americana dos anos 50. Não, ela não estava de avental e nem ficara preparando o jantar para o provedor que chegara cansado do trabalho. Não. Ela havia trabalhado ate às 18, chegou e ainda foi recolher roupa. É, a roupa ela recolhia, mas era ele quem dobrava as peças. Assim, depois do beijo receptivo, mochila no chão e parada direto no sofá. Cuecas, calcinhas e meias para dobrar. Vamos resolver logo.
- Você trouxe o note? perguntou ela
- Trouxe. Respondeu lacônico enquanto tirava o computador da bolsa e dava pra ela.

Enquanto ela ligava, ele dobrava peça após peça. Com o cansaço do dia dia na mente e nas palavras, ele contava pausadamente as agruras do trabalho enquanto ela acessava sabe-se lá o que na web.
- Nossa, acho que eu tô grávida…
No meio da dobrada que ele dava em uma calcinha.
- Hein?
- Lembra que eu fiz o exame de sangue?
- Sim.
- Então…
- Mas eu não sabia que você tava abrindo o site do laboratório.
- Ué? A gente não falou de manhã?
- Sim, mas você nem me chamou aí pro seu lado...fiquei sabendo  no meio de uma dobra de calcinha. Respondia suavemente, enquanto sorria assustado.
- Ai, desculpa, eu não achei que ia abrir direto no resultado, veio na minha cara.
- Me lembrarei para todo o sempre: naquela hora eu estava dobrando uma calcinha…

Riram. Riram nervosos, meio em choque.
Lembraram de todos os outros testes. Da solenidade para ver risquinhos nos de farmácia. Da cumplicidade de estarem os dois juntinhos lado a lado, da expectativa gostosa criada e todos os 8 meses de sorrisos de contentamento descontente do “não foi dessa vez”.

Lembraram de tudo isso e logo no dia do positivo, não foi ideal. Exatamente como a vida que nos dá as melhores coisas do jeito dela, e não com cara de seriado dos anos 60. Viram que na história deles era assim com tudo. Riram, viram graça. A graça das coisas lindas e verdadeiras. Como saberem-se futuros pais enquanto dobravam roupas de baixo. A graça dos milagres imaginados, mas não esperados. A graça de não ter o que dizer há um minuto e tudo para falar no outro. A graça de transformar um Natal igual a todos os outros, no melhor daquela casa. Como no original: com novidade, esperança e graça, que maravilhosa graça.

Feliz Natal.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O tempo que você tem


Hoje vai uma reflexão que publiquei há um tempo em outro site. Bem cara de fim de ano, bem o que vivo hoje. 

Sabe quando todas as coisas acontecem ao mesmo tempo? Essa semana eu passei por isso.  Programei trabalhos e outros compromissos baseados na agenda que eu tinha no momento. Mas as coisas mudam. Outras oportunidades apareceram e logo veio a mim aquele pensamento recorrente dos nossos dias: “meu Deus, eu não tenho tempo pra nada”.

Foi aí que duas lembranças deram uma freada nesse pensamento.
Uma música de Rodrigo Amarante e uma entrevista de Marcelo Camelo. 

Na entrevista, Camelo respondia sobre quando seria a volta dos Los Hermanos e acabou citando o parceiro Amarante. Dizia ele:
“Por enquanto cada um está com seu trabalho solo, criando coisas novas. O Rodrigo tem uma frase interessante que é: Tempo a gente tem o quanto a gente dá. Estamos dando um tempo para outras coisas.”

A frase é da música Evaporar, gravada por Rodrigo Amarante com a banda Little Joy.

 
Eu já havia ouvido diversas vezes a canção, mas não prestado a devida atenção à frase. A entrevista de Camelo me despertou para o real significado. Citando outro compositor “Temos todo o tempo do mundo”, mas gastamos tempo com aquilo que escolhemos. Sim, eu e você temos opções. Temos tempo para aquilo ao que damos o tempo.

Não é fácil, e assim como no caso dos membros do Los Hermanos que escolheram os projetos solos em detrimento de outro disco juntos, nós também temos que renunciar a algo para dar o nosso tempo para outra coisa.

Horas extras, filhos, família, diversão, estudo, cinema, um jantar romântico, passeio com o cachorro, aquele projeto social, igreja, academia, um blog, futebol com os amigos, ensaio com a banda.  Eis a escolha, para que darei o meu tempo? Do que tirarei? O mais banal do nosso dia a dia pode indicar as opções.

Talvez você tenha que renunciar a um salário maior e trabalhar menos para ter mais tempo com sua família, ou ir ao cinema apenas uma vez por mês para poder voltar à academia, ou ainda, pode ser que você já faça tudo isso.

Hoje já não digo mais a frase “Eu não tenho tempo”. As 24 horas são iguais para todos. Tempo, realmente nós temos. A questão é: para quê a gente escolhe dá-lo?


 “... O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei...”
(Trecho da música Evaporar)


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Se for pra ser, que seja eu.



Sou conhecido entre amigos e familiares por esquecer as coisas. Aquele cara que já foi diagnosticado com déficit de atenção por metade das pessoas que conhece.

Vou até a cozinha beber água, entro, pego uma banana e deixo a água lá. Pego uma conta pra pagar on line, coloco o boleto junto com as coisas que vou usar no dia pra não esquecer e eis que de repente, lembro-me dela após cinco dias. Esquecer o que eu ia fazer ao entrar em um recinto, só acontece todos os dias.
Incluindo esta reflexão que começou quando alguém no trabalho numa semana dessas, disse algo sobre esse esquecimento e colocou outra luz sobre o fato. Pena que eu esqueci, e estou escrevendo com outro viés, sério (aliás, seríssimo).

Comecei a pensar em quando eu for velho. Se sou distraído e esquecido hoje, como vai ser quando, se Deus quiser, eu tiver uns setenta anos? Tive pena da minha amada Cyn.

Serei atração das festas de família. Meus netos comentarão minhas peripécias tais como caminhadas pelas ruas sem eira nem beira, táxis que pegarei sem saber o destino, trocas de nomes deles etc. Talvez em 2047 tenhamos dispositivos que auxiliem pessoas como eu. Se hoje o celular simplesinho na mão do idoso é uma solução para achá-lo a qualquer hora, talvez, rastreadores, chips, apps e outras invenções que  pipocam em nossas timelines a todo segundo hoje possam ser protótipos do que vai salvar a minha então enrugada pele e dar um refresco para os meus descendentes, facilitando-lhes a vida.

Talvez na avançada e sideral segunda metade da década de 40 do século XXI, haja uma memória virtual, ou um Evernote em minha mente e tudo o que quiser programarei na nuvem pra não esquecer. Terei lembretes que eu não vou perceber. Como se o tal do app soube-se que neurônio ativar para que a minha mente se lembre de não esquecer a hora de fazer alguma coisa. Talvez nesse dia eu não esqueça mais de nada, serei sempre certo daquilo que vou fazer, do que dizer, não terei brancos, não mais entrarei em qualquer recinto sem saber o motivo, ou esquecerei de pagar qualquer conta. Não mais acessarei uma aba e esquecerei de fechar a do lado, deixando o vídeo que havia começado a assistir largado até a hora de desligar o computador. Talvez.


Ou talvez e deixe isso tudo pra lá, seja um dinossauro que não se deixa programar e esqueça de tudo, até, talvez, de quem eu sou. Bem, se for pra esquecer quem se é, que seja natural e não pelo fato de uma memória externa me programar e me tornar outro, uma pessoa que sabe de tudo exatamente quando e como deve ser, com um processador ultrarrápido no lugar da mente. Que seja apenas eu, o esquecido, o distraído. Apps? Pode esquecer! Em 2047 se for pra ser, que seja eu e não o robô.  

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Inspiração é papo furado


















Todo dia aparecem posts sobre inspiração na web. Como se inspirar, dicas de sites, pessoas para seguir, lugares pra ir, filmes pra ver se você escreve, fotografa, desenha, é empreendedor, ou simplesmente se você é. Até campanhas publicitárias para grandes estatais exploram o tema.

Parei em um desses textos e questionei qual, em meio à multiplicidade de referências, realmente é minha inspiração mais constante. Conversa, papo, ou melhor bate-papo. E geralmente focado em uma pessoa só. Os assuntos surgem e os pensamentos diferentes, similares ou destoantes vão se encadeando, se confrontando ou se completando. É isso. Textos, desenhos que fluem com mais naturalidade, tiveram uma parcela de trabalho, às vezes longo, mas despretensioso, feito no bate papo com amigos. Aquilo que existia na cabeça, que falava na alma e queria sair, encontra na visão outra, uma mão que puxa a ideia embrionária pra fora. E aquilo fica ali rodeando seu cérebro como as estrelinhas de desenho animado quando se toma uma pancada na cabeça até você colocar no papel, no instrumento, ou na ponta do lápis.

Foi aí que o óbvio surgiu em minha frente. Lembrei dos idealizados cafés em Paris, com a reunião de grandes artistas e pensadores em diversas épocas, teorizando, bebendo ou simplesmente se encontrando, falando sobre a produção um do outro ou apenas não falando, mas vivendo o clima de suas ideias. Lembrei dos compositores nos botecos zona sul do Rio, ou das rodas de Partido alto nas favelas e na zona norte. É claro que todos esses artistas inspiravam-se também em suas relações pessoais, familiares, amorosas, em suas próprias dores em suas alegrias em seus estudos etc. Mas alguma coisa acontece quando se conversa. O bom papo despreocupado tem o poder de disparar gatilhos escondidos e jogar gasolina em pequenas chamas que ficam ali no canto da mente.

Percebi que aquilo que idealizamos (como Woody Allen em Meia Noite em Paris), Paris, o Rio, as escolas literárias, artísticas de outras épocas, os coletivos que existem aos montes hoje por aí, tem a mesma premissa: o tal do bate papo, somado à vontade/necessidade de fazer algo. Percebi que o perfeito, e enriquecedor papo que os grandes de nossa história tinham em um encontro noturno qualquer, estão e sempre estiveram ao alcance de nossas bocas. Não é preciso um evento, um encontro dos apreciadores, fazedores ou amantes de qualquer coisa. Basta um “vamos tomar um café hoje?”


Sair para conversar, andar por aí ou até mesmo bater papo por serviços de mensagens, pode resolver. Isso é o tal do social que tanto precisamos, não só pra criar, mas pra nos percebermos, pra despertarmos mutuamente. Pra enxergarmos o que falta e o que sobra. Pra preenchermos as lacunas, pra criarmos lacunas. Pra resolvermos equações, pra propormos novos teoremas, ou apenas pra enxergarmos que não existem teoremas. Para sairmos um pouco da terra e enxergarmos coisas sem sentido ou para colocarmos os pés no chão. O papo é um construidor humilde da visão externa da vida e do conhecimento interno do eu, e do que o outro beneficamente causa em mim. O papo é um alivio e um combustível. Um sopro no machucado e uma explosão na mente.

O papo é a prova final que não há ideia completa em mim. Existem os assuntos, existem os gostos, os desgostos existem os desejos, existe a vontade de falar. Aí é que você vem e fala nas entrelinhas, meio sem saber: “nasça” e a coisa acontece.

É nesse contexto que hoje percebo que tudo o que faço é em dupla, menos a transpiração.

 Esse texto é uma sincera gratidão a todos vocês que já fizeram minha mente explodir alguma vez, apenas usando palavras e quem sabe, uma xícara de café.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Dirigir é coisa de diretor
























DÊ O PLAY ANTES DE LER: Minha Road Music




Quem acompanha meus textos por aí sabe, sou um motorista incipiente. E nessa característica, pequenas novas experiências surgem dia a dia. Depois de pouco mais de 5 meses de habilitação, no último domingo experimentei o dirigir sem rumo, em um belo e ensolarado final de tarde de inverno. Imagino que todo mundo fez isso algumas vezes, e vários motoristas o fazem costumeiramente, até mesmo para se livrar das cargas do dia a dia.

Sempre gostei disso, mesmo quando não dirigia. Nas noites de fim de semana,  na volta de qualquer que seja o evento, dizia para minha amada Cyn dar uma volta, no que ela prontamente atendia e aproveitava comigo. E nessas voltas, só olhávamos o caminho que se apresentava, as pessoas, as luzes, a falta delas, os locais que conhecemos de dia, o ar da noite e assim respirávamos o nada precisar dizer e, se acontecesse de uma ou outra ideia aparecer, esta era solta, compartilhada e levemente pensada pelos dois, sem lá muitas necessidades de serem resolvidas (e essas são as melhores ideias).


Mas todos vocês que têm o volante nas mãos há anos sabem que ter o seu momento Easy Rider, ainda que no modo easy/beginner/soft/kids, passa pela sensação de sozinho decidir pra onde virar em cada bifurcação, a velocidade que se vai e o observar da tela de cinema que se põe a sua frente no pára-brisas.   

As cenas dessa tela são decididas de modo imediato por você, em longos planos-sequência, em um roteiro com amplos espaços para improvisos e interferências externas, cujo o início e o fim são as únicas coisas sabidas. Dirigir nessa visão é dirigir com o olho da lente, com o plano imaginado um milésimo de segundo antes de dobrar a esquina e mudado quando a alameda que você nunca viu se apresenta à sua frente e te surpreende em luz e fotografia perfeitas e você diminui a velocidade para aproveitá-la.

Nesse contexto, dirigir é o dirigir de cineasta, na alma e na mente, não tendo, assim, nada a ver com pilotar. Não é correr, não é ser ás, é ver, é ser roteirista, diretor, montador e espectador da obra. É mudar o dial em busca da trilha perfeita e sorrir  quando ela aparece. É ver-se dentro do filme que ninguém nunca fez, com todos os clichês, os não-clichês, o que você já viu e que  não viu, mas sua mente almejava receber pelos olhos e ouvidos de uma só vez. É ter na mão o controle das escolha e o descontrole do mundo, dos carros, das imagens a sua volta.
Dirigir sem destino é um extrato da sua vida. Certo como você acha que escolhe tudo, incerto como as estradas te levam para lugares determinados.

Dirigir sem destino é como dirigir um curta da sua vida: basta escolher os planos e ser o John Hughes,  Wes Anderson, J. P. Jeunet, Woody Allen ou Spielberg de si mesmo. Aí é gritar “ação”, rodar e deixar sua mente editar as imagens quando um dia for se lembrar delas.






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