UM DESENHO POR SEMANA

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Uma vida em pedaços



A primeira vez em que minha esposa e eu fomos ao cinema depois do advento de um certo ruivo em nossas vidas, impactou definitivamente meu comportamento como espectador. Naquele dia, saímos faltando 50 minutos para acabar o filme. Fui terminar de vê-lo mais de um mês depois.

Nos dois primeiros meses do bebê todo mundo já está meio que preparado para não ver, não ler, não assistir coisa alguma, pois além de trabalhar, você precisa estar presente com o filho e a esposa, trocando noites por dias, buscando comida, limpando o que dá, fazendo o que dá. Disso quase todo mundo sabe e eu também não imaginava algo diferente. Mas depois de uns 6 meses, você acha que separar duas horas ininterruptas pra assistir a um filme em casa não será um problema.  Naquele momento no cinema, percebi que o tempo não ia aumentar tanto assim. Hoje quase não vejo e não me exponho a um objeto de arte de maneira inteira. Minha experiência é sempre fragmentada.



Sou daqueles que gostam de assistir um filme por completo e que ao sair da sessão, seja ela em casa ou no cinema, gostam de saborear a produção por mais alguns minutos na mente. Esse tempo, nada muito longo, é um momento de transição, como acontece quando você acorda de um sonho. Por alguns segundos sua mente entende que está no real e passa a querer analisar, por em ordem, as cenas, os personagens, as histórias que seu inconsciente criou. Você não entende tudo de imediatamente, mas um dia depois seu cérebro joga as cenas novamente na sua cara, algumas conexões se restabelecem e você percebe as mensagens. Para mim cinema é a mesma coisa, com a diferença que essa análise é feita a partir do (in) consciente de outros, no caso, o diretor e o roteirista.

Essa completude da experiência sempre foi essencial para mim. É o mesmo com um livro, que, apesar de uma exposição mais fragmentada, é uma obra que demanda dedicação, principalmente no início da leitura. É preciso um envolvimento com a linguagem, com os personagens, com o ambiente. É necessário intimidade. Como fazer amizade.
No caso do cinema, o ritmo é pensado para aquele tempo. Cada anticlímax e clímax foi idealizado e construído na cabeça e na montagem. A expectativa criada para uma cena, a solução feita pra ela. Quando se quebra esse


Precisei aprender a ser um  um espectador de fragmentos. Alguém que começa o filme na TV vê um pedaço no celular, depois termina no almoço, no computador da agência. Era fazer isso ou não fazer, ou ainda, na melhor das hipóteses fazer raramente. Mas raramente pra mim não existe. Foi então que para me obrigar a assistir mais filmes, mesmo dessa forma incompleta, criei um projeto de ilustração, cinema e fotografia. Um projeto que me faria ver mais filmes e desenhar mais. Um projeto que forçasse a minha adaptação ao tempo em que vivo e ao tempo que tenho, sejam eles 15, 30, 40 minutos. Um projeto que fosse expressão da experiência quebrada que eu tinha. Um projeto de necessidade de arte por causa das pessoas a quem eu amo.  Recortes que o novo jeito do espectador tem da mente do outro. Daí saiu o moviesketches. Expressões em desenhos rápidos feitas naquela transição do sonho para a mente desperta. A mistura entre o real e o artístico. Ilustração e matéria. Cinema, desenho e foto.


Creio que nunca aproveitei tanto o tempo. Nunca imaginei que passar tantas horas com uma criança seria tão bom. Nunca pensei que meu pouquíssimo tempo para todas as outras coisas seria tão grande. Nunca pude imaginar que meus minutos me eram tão caros. Amo minha família, amo esse ruivo. Não amo meu tempo mas posso dizer que começo a perceber que pedaços dele podem ser mais completos que dias inteiros. Ah, antes que eu me esqueça: obrigado por dar um pedaço do seu tempo por aqui.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O tempo que você tem


Hoje vai uma reflexão que publiquei há um tempo em outro site. Bem cara de fim de ano, bem o que vivo hoje. 

Sabe quando todas as coisas acontecem ao mesmo tempo? Essa semana eu passei por isso.  Programei trabalhos e outros compromissos baseados na agenda que eu tinha no momento. Mas as coisas mudam. Outras oportunidades apareceram e logo veio a mim aquele pensamento recorrente dos nossos dias: “meu Deus, eu não tenho tempo pra nada”.

Foi aí que duas lembranças deram uma freada nesse pensamento.
Uma música de Rodrigo Amarante e uma entrevista de Marcelo Camelo. 

Na entrevista, Camelo respondia sobre quando seria a volta dos Los Hermanos e acabou citando o parceiro Amarante. Dizia ele:
“Por enquanto cada um está com seu trabalho solo, criando coisas novas. O Rodrigo tem uma frase interessante que é: Tempo a gente tem o quanto a gente dá. Estamos dando um tempo para outras coisas.”

A frase é da música Evaporar, gravada por Rodrigo Amarante com a banda Little Joy.

 
Eu já havia ouvido diversas vezes a canção, mas não prestado a devida atenção à frase. A entrevista de Camelo me despertou para o real significado. Citando outro compositor “Temos todo o tempo do mundo”, mas gastamos tempo com aquilo que escolhemos. Sim, eu e você temos opções. Temos tempo para aquilo ao que damos o tempo.

Não é fácil, e assim como no caso dos membros do Los Hermanos que escolheram os projetos solos em detrimento de outro disco juntos, nós também temos que renunciar a algo para dar o nosso tempo para outra coisa.

Horas extras, filhos, família, diversão, estudo, cinema, um jantar romântico, passeio com o cachorro, aquele projeto social, igreja, academia, um blog, futebol com os amigos, ensaio com a banda.  Eis a escolha, para que darei o meu tempo? Do que tirarei? O mais banal do nosso dia a dia pode indicar as opções.

Talvez você tenha que renunciar a um salário maior e trabalhar menos para ter mais tempo com sua família, ou ir ao cinema apenas uma vez por mês para poder voltar à academia, ou ainda, pode ser que você já faça tudo isso.

Hoje já não digo mais a frase “Eu não tenho tempo”. As 24 horas são iguais para todos. Tempo, realmente nós temos. A questão é: para quê a gente escolhe dá-lo?


 “... O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei...”
(Trecho da música Evaporar)


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Perene como uma escultura na areia




O tempo das coisas, sua duração, sua relevância. O que fica como legado, história, lembrança física ou conteúdo. Com a web que temos hoje, o que fazemos fica gravado lá. Nossas discussões mais fúteis, que na hora pareciam relevantes, nossos lamentos, posts engraçadinhos, videos dos filhos andando, fotos de viagem. Tudo esta lá e ainda que apagado, deixa nossos rastros aqui e ali. Quem produz conteúdo, seja um blogger, um vlogger, um jornalista, ou um twitteiro profissional, experimenta isso mais a flor da pele. Você que faz isso, já pensou? “O que é que estou deixando como legado?” Nossa que exagero, Legado? Sim, caros, legado. Um conversa com o amigo e designer Lucas Pedro, e o video abaixo me fizeram pensar sobre isso.




Vi as fotos dessa escultura  na areia e meu primeiro reflexo foi pensar na tristeza que deveria ser fazer a obra sabendo que aquilo durará no máximo, quem sabe, um dia. Com esse sentimento em mim, cliquei no video que mostra o processo em time lapse. O video. As fotos. Aquela escultura já não era mais uma obra que sofria da efemeridade imposta por sua matéria prima, a areia. Nos dias de hoje, as obras (e não só as de areia) existem nos jpegs, nos videos, no dados que vão e vêm por nossas transmissões banda larga, 3 e 4G.  Não são dependentes de um museu ou da benesse de um colecionador expô-las publicamente. Não são mais dependentes de publicações, que necessitam de editores, que necessitam de distribuidores, que necessitam de livrarias e bibliotecas. Hoje a curadoria, virou um termo social media. Hoje, TVs, jornais, museus, galerias, bibliotecas são os nossos perfis (e aqui está a discussão da moda). Lá estão nossas preferências musicais, nossos filmes, referências. Lá estão as referências dos nossos amigos, e daqueles que só “seguimos” por sua curadoria.   Talvez essa reflexão soe a você antiga. Falar sobre a tal curadoria já é um assunto batido de, talvez, uns 4 anos? Mas volto ao questionamento do iníco do texto. Qual é o meu legado? Que conteúdo saiu de mim, que expressões fizeram diferença? Hoje em dia, salvo distorções, poucas pessoas com menos de 40 anos podem dizer que não tem voz, que não tem acesso a como se expressar, gritar, dizer, publicar para pelo menos 100 pessoas. Assim, com essa possibilidade, o que ficará de nós, e o que será acessado através dos 5, 6, 15Gs daqui 40 anos? Nossa cápsula do tempo está aí nessa fase massiva da rede internacional de computadores com poucos mais de uma década. O que você diz hoje, pode durar pouco em sua boca e na ponta dos seus digitadores dedos, mas pode ser tão perene como aquela escultura na areia.

Vi o video aqui e as fotos originais estão aqui

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O terapêutico som do silêncio


Estava quieto. Não escrevo há algum tempo, nem aqui ou em outros lugares. Emendei minhas férias com um período de pausa nas reflexões. O engraçado foi que Interrompi meu silêncio, para falar exatamente da importância dele.

Vendo muitas coisas nas redes, até mesmo me fazendo menino novamente, errando ao falar sobre questões sem solução, entrando em discussões vãs, também sendo homem ingênuo, acreditando que podemos olhar para o geral e para o bem comum e não apenas para nós mesmos, me cansei. Cansei das brigas, das defesas de opiniões, dos discursos hipócritas nossos de cada dia. Sim, nossos. Até aqueles a quem respeitamos fazem isso. Eu me pego fazendo isso. Está em nós pregarmos uma atitude em certos assuntos e negá-la em outros.

Talvez pareça haver em minhas palavras um pouco de desesperança. Mas não é isso.
Às vezes a gente sufoca os gritos e coloca o sorriso Willy Wonka no rosto. E não quero fazer isso.  Também não sugiro que todos fiquem chorando por aí o tempo todo. Mas “há tempo de rir e de chorar, tempo de prantear, e tempo de dançar(...)tempo de estar calado, e tempo de falar”, como diria o sábio. 

Há tempo para cada coisa, mas a gente perde o tempo, ou o “timing” como se diz na comédia. A gente perde o tempo de se calar, de deixar passar, de não acalorar debates, de não fazer a piada, de silenciar se não for admitir a incoerência de nossas paixões. É, as paixões são assim. Mas mesmo elas não são provocadinhas como defendemos. Num desejo de estar certo e provar para o mundo, ficamos apaixonados por nós mesmos, por uma opinião, por uma causa, por algo que nos traz sentimentos alegres, por discursos que nos fazem sentir diferentes de todos os outros reles mortais.  Quando o Criolo diz que “não existe amor em SP” é a localização de um problema geral. Não nos apaixonamos pelos outros. E quando fazemos isso, pouco depois aparecem os discursos, as defesas de bandeiras, o partidarismos, a “clubelização” dos sentimentos que antes eram nobres. É claro, há muitas exceções, mas não é delas que falo hoje.

O que me fez sair do silêncio foi a tragédia de Santa Maria. Que dor. Quanta tempo tiveram aqueles meninos? Quanto tempo aproveitaram a vida, quanto marcaram, influenciaram a vida de outros? Quanto tempo tiveram seus familiares com eles? Que dor. E eu e você aqui fazendo um descarte não responsável de tempo, achando que damos algo ao defender nossas "causas”, nossas “filosofias de vida”, nosso “amor”.

O tempo daqueles garotos foi encerrado violentamente. Às vezes, quando uma tragédia acontece a alguém próximo, não é necessário que digamos qualquer coisa pra aquela pessoa. Basta a nós que, em silêncio, estejamos ao lado dela. Nossa presença, nossas mãos, braços e abraços dizem tudo o que é necessário.

Bom é o silêncio, a pausa, que também é música.

Que haja, mãos, braços e abraços também para Santa Maria. Que haja o silêncio afetuoso do amor para eles. E em nossos pequenos mundos, que não sejam necessárias tragédias para nos calarmos de vez em quando.
  

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