UM DESENHO POR SEMANA

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ariano, Ubaldo e Rubem Alves - sentido, sentimento e pertecimento


Não li Ariano, Ubaldo e Alves como deveria. Não li.
Não li porque perdi muito tempo na vida fazendo outras coisas e não lendo, não escrevendo, não lendo, não escrevendo.

Foi aí que comecei a correr a atrás. Mas isso é uma outra história, outro dia, outro clima.
Dos três, Ariano é quem me chega mais fácil. Não por que o seja, mas por que ele quer que seja. Toda a referência dele serve à busca de uma não erudição, apesar dela estar nele. É falar com cara de simples o que é complexo, é analisar a história contando uma pequena. Pra mim, nada é mais difícil que isso, assim como Picasso dizia, sobre seu objetivo de pintar como uma criança. Trazer tudo o que você sabe para traços simples. A tal da sofisticação que existe nas linhas básicas.

Ariano deu ao Brasil diversão erudito-popular sem ser popularesca. Deu voz (amplificada pela produção audiovisual que se seguia um momento especial de redescoberta cinematográfica do  país - no qual Ubaldo também foi representado por Deus é brasileiro) a ícones que deixariam o nordeste mais próximo de si mesmo e das outras regiões. Trabalhou com o que existia pra criar o que não era.  Dele vem o árido como textura e não apenas como desolação determinada, a miséria como propulsor e não apenas como explicação. Dele vieram à tona, em meio à poeira, os sons sertanejos misturados com viés de erudição, mas com gosto de chão batido em rimas medievais, em desafios e repentes, nos diálogos de seus personagens ou nas palestras e entrevistas divertidas e afiadas que se divulgam por aí. A xilogravura é a sua cara. A história contada a seco, sem perspectiva, muita alegoria e contraste.

A morte às vezes faz brotar o novo. É comum ter uma corrida da obra de quem acabou de partir. Quem sabe como falecimento desses três, a gente (isso, eu e você) volte a se reconhecer um pouco mais em meio a um solo árido de palavras, sentido e sentimento de pertencimento coletivo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Noé: é ou não é?


O trocadilho é ruim e dizem que o filme também. Sim, dizem pois você vai ler aqui sobre minha impressão de um filme que eu não vi. Na verdade verdadeira o que vou falar é da repercussão. Você pode achar estranho eu falar da repercussão de algo que eu não vi, mas é ainda pior: é a repercussão da repercussão.
Calma, que a gente resolve. Começou com as redes sociais, sempre elas. Pelo menos nos meus perfis o que surgia era gente reclamando de outra gente que reclamou da pouca fidelidade do roteiro em relação à história original. O argumento era que reclamar dessa disparidade entre produção é fonte não fazia sentido já que era um filme e como tal, não se poderia esperar algo diferente. E aqui vão dois pontos:
1. Eu não vi ninguém, sério, ninguém em nenhuma rede, reclamar do conteúdo. Já os reclamadores a respeito da reclamação eram inúmeros.
2. Como assim não faz sentido reclamar? Tem coisa mais frustrante do que você conhecer uma história, ir a té o cinema pra vê-la e não conseguir? (Tá, tem, mas você entendeu). Ou porque é da bíblia pode mudar numa boa? Isso acontece com filmes e a indignação das pessoas acompanha. É clássico o pensamento de que não é bom assistir um filme depois de ler o livro.
Posso dar três exemplos:

O caçador de Pipas. O livro tem muitos acontecimentos e com o gasto de páginas relacionados a cada um deles relativamente bem utilizado. O filme da desespero de ver. Por haver muito conteúdo, de repente no fim da história os acontecimento são contados com pressa e você não vê o final.










Vamos para um brazuca. O Matador. O livro da Patrícia Mello, narra a história de um assassino de aluguel que entra no crime depois de uma aposta perdida. O enredo se passa em São Paulo. No cinema a história foi mudada para o Rio, com todas as gírias e regionalismos. O personagem principal tinha um porquinho chamado Gorb em homenagem a Gorbachov. No filme o nome muda para Bill, de Bill Clinton. Sério? E essa são apenas duas das mudanças, mas o efeito é que o filme te perde de cara, pois você não acredita mais no que vai passar ali, e o protagonista ser feito por Murilo Benício também não ajuda.



Outro filme é Febre de Bola (Fever Pitch), baseado no  livro de Nick Hornby, autor do ótimo Alta Fidelidade e O grande Garoto. Um se passa na inglaterra o outro nos EUA, um fala de futebol e o outro de baseball. 

Sim, o filme é mais sobre as relações e de como o personagem do filme precisa amadurecer. Mas, para nós brasileiros o fator futebol conta muito e imagino que para os ingleses também.
A questã é que nas redes sociais tudo se intensifica, somos intolerantes com a opinião do outro, principalmente se ela começa a repetir  na timeline. Senão o fosse, esse texto não existiria.
Assim, não posso falar de Noé, sua fidelidade ou não com a Bíblia. Mas posso dizer: ver uma história muito diferente do que você leu é frustrante, tenha ela crença envolvida ou apenas vis detalhes como cidade, país ou modalidade esportiva.

Então, patrulha, descansar, né?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

3LADOS - Rubens, Junior e a fragata tipográfica


Esse é um 3LADOS zoo-literário-tipo-fotográfico. O espinafrador Junior Valler e o redator Rubens Gualdieri (já anteriormente participantes desta coluna aqui e aqui) se empolgaram na ideia e se juntaram nessa tabelinha que resultou num gol de placa que navega por várias áreas da comunicação.
Veja se não ficou show:


Uma Fragata nadando na imensidão do mar celeste, solitária, mas desenhando sua presença e dando um contorno suave no papel azul.
Tão simples e tão direto que até arranca um sorriso do rosto. E sorriso chama sorriso. É contagioso.

Aí, um designer enxerga além do que os olhos podem ver e a festa da percepção está pronta: São 3 personalidades com o mesmo sorriso.

O sorriso espontâneo: 

Sabe aquela pessoa que tem o sorriso espontâneo, riso fácil? É o cara Comics Sans.
Ele foi criado pra ser um piadista e não adianta colocar em uma função burocrática que ele vai estragar tudo. Ele transforma qualquer tese de doutorado em uma piada. Às vezes de mau gosto, mas, quem disse que ele foi criado pra isso? Basta ver o sorriso largo, maroto e os olhinhos quase fechados de tanto rir. É um bonachão.




O sorriso sorridente:

Tem outras pessoas que fazem exatamente aquilo que foi pedido: sorria – ela sorri. Não sorria – ela não sorri. Tudo muito regular, exato, milimétrico. Tenho um pouco de medo dessas pessoas tão previsíveis. De antemão você sabe exatamente o que vai encontrar: um sorriso com curvas, olhos redondos, fisionomia absolutamente normal. E amarela. Essa é a pessoa Bodoni, que poderia muito bem ser um show man com um cartaz amarelado anunciando a próxima atração. Com o rigor que a ocasião merece.



O sorriso moderno:

Ele é o preferido de dez entre dez designers. Basta ele esboçar um sorriso, para que todos comecem a gargalhar. Uma curva absolutamente regular faz a sua graça e os olhos parecem trazer um estilo óculos quadradinho, moderno, que confere certo ar de inteligência no sorriso. É um cara confiante, dificilmente decepciona um trabalho e dá certo aspecto de coisa boa, mesmo que essa coisa seja uma merda. Essa é a mania do cara Helvética: ter uma leitura ótima, sobre coisas absolutamente sem sentido.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Impressões de "Capitu"

Pela primeira vez posto aqui desenhos meus. Como prometido, eis minhas breves e últimas impressões sobre a adaptação para a TV da obra de Machado de Assis. Enquanto eu ia assistindo, ia fazendo. Enfim, impressões...

(clique na imagem para ampliá-la)





quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Redimiu?

Depois de um atraso de 3 dias por perder o último capítulo e conseguir resgatá-lo no Youtube, posso dizer: não sei se Capitu redimiu Dom casmurro, mas eu estava certo numa coisa, é realmente a melhor produção do ano exibida na rede Globo.

A minisérie foi tudo o que eu esperava e mais um pouco. Para os traumatizados pela escola, deixo uma pergunta: dá pra falar mal da história de “Dom Casmurro agora? Ah Luís Fernando Carvalho... O diretor declarou que fez “Capitu” para os jovens, exatamente pelos motivos que escrevi aqui no Será que “Capitu” redime “Dom Casmurro” ?

Ótima trilha sonora, contando com a surpreendente banda Beirut, a independente Manacá – banda de Letícia Persiles, intérprete da jovem Capitu, como meu amigo Junior Valler havia adiantado aqui em comentário, - Pink Floyd, entre muitos outros. Uma mistura de coisa novas e antigas cheia de referências pop no que de melhor a palavra pode significar.
De comentários, só isso, a trilha sonora. Depois deixo aqui outras e breves impressões.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Será que “Capitu” redime “Dom Casmurro”?

Você como eu ficou traumatizado ao ser obrigado a ler Dom Casmurro com 14 anos lá pela sétima, oitava série? Ou de repente, anos mais tarde um vestibular, fez com que tivesse que ler correndo junto com mais outros 12 livros? Se você disse sim, provavelmente essa violência terá deixado em sua vontade de ler, marcas indeléveis. E se isso também te aconteceu, você como eu deve ter demorado a saber o que quer dizer “indelével” , - ou ainda não sabe – já que não quis mais ler livro nenhum por um bom tempo. Mas não fique triste, você passou por um trauma e ainda pode se recuperar.

Estréia hoje, logo no fim do ano, o que promete ser a melhor atração da rede Globo do ano. Não, não é o Show da virada, o Roberto Carlos ou coisa parecida. É a minissérie Capitu.

Mas porquê essa seria a melhor atração do ano?
Porquê agora virou tradição na emissora do Roberto Marinho passar uma minissérie dirigida por Luís Fernando Carvalho, que geralmente faz tudo saindo da mesmice da TV brasileira, ao contrário do que a própria rede Globo faz diariamente. E fora isso, a adaptação pode sim, redimir Dom Casmurro, um dos nomes que mais causa traumas nos alunos nas escolas desse país.

Só pelo fato de fazer diferente, Fernando Carvalho já ganharia pontos, mas resgatar uma das obras máximas da literatura brasileira, não é para qualquer um, principalmente nos dia de hoje e na TV. Será que ele consegue?

Fernando fez o ótimo“Hoje é dia de Maria” e o um pouco difícil “A pedra do Reino” que tinham como principal defeito o horário em que passaram, quase meia-noite. Cenografia diferente, referências circenses e folclóricas, fizeram de suas minisséries oásis de originalidade e resgate da cultura brasileira sem qualquer engajamento piegas.

A adaptação da obra de Machado de Assis, não é algo incomum. Existem peças, livros, ciclo de debates, pesquisas acadêmicas sobre o livro. Existe até a péssima adaptação para o cinema com o filme “ Dom”.
O irônico é que Maria Fernanda Cândido viverá novamente Capitu - foi ela quem interpretou a amada do tal Dom Casmurro, no já citado e malfadado “Dom” - tudo por causa dos seus “olhos de cigana obliqua e dissimulada” ou ainda “ olhos de ressaca”.Nos nossos dias não poderia ser outra atriz. Quem sabe o Luís Fernando Carvalho não redime além do livro, a intérprete da personagem que da nome á mini-série.

Se você ainda está olhando torto para o tal do “Dom Casmurro”, de repente é bom dar uma chance a ele e ao Luís Fernando Carvalho. Como disse antes, eu fui traumatizado aos 14 anos, mas lá pelos 25 tomei coragem e decidi ler novamente. Venci o trauma, conheci o maior escritor da literatura brasileira, e comecei a realmente ler e escrever.

No mínimo, provavelmente será um bom entretenimento, apesar do horário.
Quem sabe você dá uma colher de chá pro Machado e não lê o livro, hein? Até porquê, ler é perguntar e responder para si mesmo...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Dr. Jekyll & Mr. Hide



Na verdade eu tinha pensado em colocar como título “Assassinos por natureza”, mas achei forte demais. Talvez não seja. Quantas guerras estão acontecendo no mundo? Por que ocorrem? Talvez pareça uma pergunta comum, que todos já se fizeram um dia, mas ela vem de uma fonte diferente dessa vez.

Lembra do tal Caim que matou o irmão Abel por ciúme inveja? Cortes, feridas e agressões são feitos por toda sorte de motivos possíveis e até mesmo improváveis. Por causa de fronteiras, por causa de combustível fóssil, por pedaço de terra, por sexo, por diferença de cor ou credo e ainda mais, pelo motivo original de quase todos esses, o tal do “faz-me rir”. E se passam pela sua cabeça, frases como “é, verdade, como é que o ser humano pode fazer essas coisas?!”, pense diferente. Coloque o pronome “nós” no lugar de “ser humano”, flexione o verbo e aí a sentença estará mais próxima da exatidão sintática e semântica.

Nós temos essa vocação bélica. Uma lutinha, uma disputa, seja por qual for o motivo, pode despertar em nós nossa porção Átila, o huno, há muito adormecida. Ficamos irados, David Benner dá lugar ao cara verde, e no alto de nossa nenhuma razão, fazemos coisas absurdas, como por exemplo, agredir quem amamos. Sim, se os loucos de nossa história fizeram um sem número de atrocidades com pessoas que não conheciam, nós o fazemos com quem conhecemos, e ainda mais, com quem gostamos. Sinceramente, não sei o que é mais irracional.

Por necessidade de afirmação, cansaço, egoísmo, pelos cuidados excessivos com as coisas, por dinheiro ou pela falta dele, ou por simples competitividade. Às vezes matamos um pouquinho de quem amamos. O termo “matar” é forte? Talvez. Mas é o que acontece. Os pequenos cortes, se não tratados infeccionam e podem causar grandes estragos. Toda vez que ferimos alguém, morremos um pouco também, matamos o nosso eu que havia conquistado lugar na alma da outra pessoa.

Destempero, angústia, agressão. È o doutor e o monstro, Dr. Jekyll & Mr. Hide. Quando voltamos da jornada da transformação, fica um pouco do gosto amargo da fórmula. Nos perguntamos, como pudemos beber daquele veneno. E talvez esse questionar seja o melhor jeito de sabermos que nos tornamos humanos, no melhor sentido da palavra, novamente.

A diferença entre toda a raça humana nascida para matar e os bárbaros de nossa história, e os piores criminosos que hoje andam soltos por aí, é exatamente essa consciência. O parar para pensar e perceber o momento de insanidade a fim de estar pronto para resistir ao cálice de ódio quando ele nos for oferecido.
Assim conseguimos separar o homem do monstro. O poder de se arrepender, de aprender com aquilo que é ruim na sua própria natureza e melhorar. Os monstros não fazem isso. Os animais também não.

Enfim, as guerras estão aí, por culpa dos homens, da briga no trânsito à faixa de gaza. O que muda é que alguns tomam maiores doses do veneno que outros. E alguns têm mísseis e outros não.
Somos assassinos por natureza, mas podemos ser homens por escolha.
Escolha feita todos os dias, para o resto de nossas vidas.

Trilha sonora:

O médico e o monstro -(Resgate - CD "Até eu envelhecer")


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