UM DESENHO POR SEMANA

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

CUIDADO: Tratamento democrático


Eleição
Tratamento democrático

Apresentações
Municipais, estaduais e federais para poderes executivos e legislativos

Laboratório
República Federativa do Brasil

Indicação: o medicamento é indicado para a manutenção do sistema democrático e exercício do direito de escolha do cidadão. Também é recomendado para o tratamento de ditaduras, sistemas autocráticos e despóticos.

Contraindicações:
O medicamento é contraindicado em pacientes com hipersensibilidade conhecida a qualquer componente da fórmula. Se este for ingerido acidentalmente é provável que ocorra amnésia na dosagem seguinte. Não deve ser usado com Facebook.

Efeitos colaterais: Pode provocar esquizofrenia, devaneios, expressão de desejos ocultos, perda de compreensão da linguagem, enrijecimento do dedo indicador, causar surdez, cegueira, depressão, irritabilidade, hipertensão, verborragia, perda de memória recente e amigos antigos.  

Posologia: uso adulto, a partir de 16 anos, 2 a 3 pílulas a cada 2 anos.
Via de administração: Urna 

Superdosagem É improvável que cause danos permanentes, mas em caso de excesso, o uso pode causar confusão de números, perda de noção de lógica e enfado.

INTERRUPÇÃO DO TRATAMENTO: NÃO INTERROMPA O TRATAMENTO SEM O CONHECIMENTO DA NAÇÃO.


NÃO USE REMÉDIO SEM O CONHECIMENTO DA SUA MENTE E BOM SENSO. PODE SER PERIGOSO PARA A SAÚDE DE TODOS.

 


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ariano, Ubaldo e Rubem Alves - sentido, sentimento e pertecimento


Não li Ariano, Ubaldo e Alves como deveria. Não li.
Não li porque perdi muito tempo na vida fazendo outras coisas e não lendo, não escrevendo, não lendo, não escrevendo.

Foi aí que comecei a correr a atrás. Mas isso é uma outra história, outro dia, outro clima.
Dos três, Ariano é quem me chega mais fácil. Não por que o seja, mas por que ele quer que seja. Toda a referência dele serve à busca de uma não erudição, apesar dela estar nele. É falar com cara de simples o que é complexo, é analisar a história contando uma pequena. Pra mim, nada é mais difícil que isso, assim como Picasso dizia, sobre seu objetivo de pintar como uma criança. Trazer tudo o que você sabe para traços simples. A tal da sofisticação que existe nas linhas básicas.

Ariano deu ao Brasil diversão erudito-popular sem ser popularesca. Deu voz (amplificada pela produção audiovisual que se seguia um momento especial de redescoberta cinematográfica do  país - no qual Ubaldo também foi representado por Deus é brasileiro) a ícones que deixariam o nordeste mais próximo de si mesmo e das outras regiões. Trabalhou com o que existia pra criar o que não era.  Dele vem o árido como textura e não apenas como desolação determinada, a miséria como propulsor e não apenas como explicação. Dele vieram à tona, em meio à poeira, os sons sertanejos misturados com viés de erudição, mas com gosto de chão batido em rimas medievais, em desafios e repentes, nos diálogos de seus personagens ou nas palestras e entrevistas divertidas e afiadas que se divulgam por aí. A xilogravura é a sua cara. A história contada a seco, sem perspectiva, muita alegoria e contraste.

A morte às vezes faz brotar o novo. É comum ter uma corrida da obra de quem acabou de partir. Quem sabe como falecimento desses três, a gente (isso, eu e você) volte a se reconhecer um pouco mais em meio a um solo árido de palavras, sentido e sentimento de pertencimento coletivo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A hora de colocar a bola debaixo do braço


Decidi falar sobre o jogo de ontem.  Mas me coloquei algumas condições.  Não ser condescendente. Não vilanizar ninguém, não politizar, pensar logicamente, tentar assimilar o golpe e assim tirar um pouco o sentimento que está dentro e mim.

Foram sete gols. Sete.  Em menos de sete minutos aconteceu o apagão que deu origem à catástrofe. Depois do fim do jogo, em menos de 7 segundos, as pessoas ficaram loucas. Algumas nas ruas depredaram coisas. Outras nas redes depredaram gente. Exatamente como o blackout da seleção, deu um branco na cabeça do povo. É sério, nunca vi tantas manifestações desconexas expressas em tão pouco tempo, nem em junho do ano passado. A lógica sem lógica pré-copa, quando se falava toda sorte de devaneios e teorias da conspiração voltou como uma avalanche. Pelo jeito estava represada. Na verdade o que me parece é que apesar de falar mal todo mundo queria fazer parte da vitória. Ela não veio. Aí como os jogadores, ninguém sabia o que fazer. Perdidos, sem dar aquela parada, respirada e tendo a atitude de colocar a bola debaixo do braço e acalmar o time, as pessoas se perderam. Enquanto o time estava perdido no campo, as pessoas perderam a cabeça.

Entendi que o futebol é importante, até para quem diz não se importar. Gente que não está nem aí, que não respirou antes de falar com a cabeça cheia. Gente que acha que o futebol é o reflexo do país. 
Espero que não seja. Que não seja um país que abandona os derrotados. Pro futebol e pra sociedade.
Meu desejo é que a gente respire, recolha os feridos, e pense. Pense antes de falar, antes de decretar, antes de dar a opinião relevante e inteligente sobre tudo.

A copa não acabou, o futebol não acabou, o país não acabou. E independente do que acontecer em outubro também não vai acabar. Mas isso se eu, você e o futebol pararmos, respirarmos e colocarmos a bola debaixo do braço e andarmos calmamente até o centro do campo pra recomeçar a partida. Como um dia disse  e fez Didi ao tomar um gol:
- Acabou a sopa deles. Agora é a nossa vez.



segunda-feira, 23 de junho de 2014

O choro é livre.



Chorava todo mundo mas agora ninguém chora mais. Peraí, é o contrário. Ninguém chorava, agora todo mundo chora. Mas por que isso está acontecendo?

Depois do choro de Julio Cesar, Thiago Silva e Neymar, o jogador de Costa do Marfim também chorou durante a execução do hino de seu país. No caso dos brasileiros parece óbvio: eles estão jogando a competição mais importante do esporte número um do mundo, no próprio país e ouvindo 60 mil pessoas cantando junto com eles o hino de sua nação. Pode haver catalisador maior de emoção e catarse do que isso? Soma-se a isso a pouca idade do maior craque brasileiro em atividade e a estreia em mundiais dele. No caso de Júlio César, talvez perceber-se como titular da principal seleção do mundo durante o claro ocaso da carreira, com descrédito unânime do mundo da bola, possa ser motivo suficiente para extravasar.
Soma-se a esses o mais óbvio de todos, porém diferente,  Luis Soárez, atacante e principal jogador uruguaio, que após ser dúvida para copa fez um jogo inesquecível em sua volta, marcando dois tentos contra os ingleses, mantendo vivo seu país na competição e enfim, chorando. Trama de mito de heroi pra ninguém botar defeito.
Aí temos três tipos de choro:
1. O vindo da emoção catártica, contagiante, vinda do ambiente,
2. O impulsionado pela percepção de quem se é, sua situação e a benção de viver algo grande apesar de tudo.
3. A de vencer um desafio individual, sair das cinzas com esforço maior e alcançar uma vitória com ares heroicos para o coletivo.
O ator, diretor e entrevistador Antônio Abujamra sempre faz uma pergunta a seus entrevistados no programa Provocações: “você chora diante de quê? Você chora diante da beleza?” A resposta afirmativa à segunda questão é sempre a mais bela, mais poética, mas isso não acontece comigo. Ainda que tenha me emocionado também com o primeiro jogo da copa, choro de verdade apenas quando estou com raiva.
Quando criança eu chorava muito, pelos mais diversos motivos. Depois de grande só ficou a raiva. Raramente choro de emoção, tristeza ou alegria. A raiva, o sentimento de injustiça extrema me fazem chorar. O choro sai lavando e impedindo a violência chegar até os punhos. Quando adolescente, certa vez ao ser envergonhado em frente a uma garota, não chorei, chutei o pilar mais próximo e quase fraturei o pé. Sim, hoje é engraçado. Por muito tempo me senti idiota com aquilo. Como um Felipe Melo da vida, “deveria ter chutado o moleque que me envergonhou, fraturado o joelho dele” pensei durante anos. Até o dia em que, mais maduro, fiquei feliz com aquilo, por não ter batido no rapaz, por não ter seguido numa sequência de sempre dar vazão agressiva à raiva, pela não-violência, por aquilo não ter passado pela minha cabeça na hora. Substituí o chute no pilar pelo choro, que graças a Deus, há tempos não aparece.
Volto à pergunta do provocador: e você, “Chora diante de quê?”
Beleza, catarse espiritual, vitória esportiva, a simples e dura tristeza de uma perda? Chorar é bonito, lírico, mas depende do contexto. O choro é livre e cada um deve ter seu momento de extravasar.
Porém, muitos assustaram-se com o choro dos brasileiros, inclusive jogadores comentaristas, falando que aquilo poderia ser um descontrole emocional que atrapalha a produtividade. Sim, poderia e isso é preocupante se continuar. Passada a emoção dos dois primeiros jogos está na hora de tomar as rédeas e realizar o feito, assim como Luisito Soárez, que desaguou depois de alcançar a glória  e não antes.

Na vida e no campo às vezes é preciso segurar o choro e usar a água represada como força motriz, expressando tudo o que está dentro de si, seja alegria, energia e até raiva, em ações. E assim, se possível, ao invés de dar um bico no pilar ou no joelho de alguém, que toda essa emoção culmine no melhor chute a uma bola, numa conquista na vida e em um grito rasgado de gol. E aí, que venham todas as lágrimas.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

um desenho por semana por um mundo mais bacana XCII


A copa veio, estou ansioso.
Fico mesmo. E torço, fico nervoso.
E acho lindo a cidade poder ficar com mais cor
E de repente nosso inconciente estar todo lá nos pés de um jogador
Que coisa é essa? Acordei e na playlist estavam músicas de um idioma estrangeiro
Que estranho, o trabalho não rendeu, precisava de um sotaque brejeiro
Fico contente em pensar que tem mais gente no clima, todas de uma vez
e a gente ter a licensa poética de amar nossas cores durante 1 mês.
Que seja assim, que esse mês seja inteiro, que inspire a ser o ano certeiro
Uma baita vontade de ser como campeão, na arena e no dia a dia cidadão
O que há de melhor, o que pode ser maior
Dentro de todo brasileiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Cegos, surdos e loucos



















Enquanto estou no meio das “mais loucas aventuras” de um casal gestando o seu filho em um país totalmente confuso, irritado,com redes sociais armadas, desinformadas e uma copa do mundo acontecendo, “hoje na sessão da tarde”, penso: o que é que devo fazer da minha mente?

Sim, durante essa loucura toda, minha sanidade é o assunto principal que faz a pulga alojar-se atrás de minha bela orelha. Talvez como  eu, isso também tenha acontecido com você (ou não, você é normal).

Tanta coisa pra pensar, decidir, resolver, realizar e até “prever” que o caso vai ser de manicômio. Por que a gente pensa em nós, egoísmo puro. Aí a gente pensa na criança - que lindo! Sim, mas é a minha criança, então não há tanta vantagem assim - egoísmo quase altruísta. Aí tem o Brasil, as mazelas, o coletivo, a corrupção, a realização, a melhora, a piora, as classes sociais, a administração do país, a cidadania, as opções, a falta delas. As verdades e as mentiras que fazemos delas.

A mistura das personas cidadão, pai, marido, amigo, irmão, tio, colega, profissional, artista fez-se mais confusa. Sim, é questão de terapia, meus amigos. Mas, em uma medida de emergência, resumi todas as questões em apenas uma sofisma tostínica (talvez culpa de minha persona publicitária):   

O que é mais importante: que mundo vou deixar para os meus filhos, ou que filho vou deixar pra esse mundo?

Vou atrás do que for possível para saber mais e fazer o melhor que puder em voto, opinião, textos, conversas, insistindo nos debates em prol do meu país, atingindo a coletividade e conquistando um futuro melhor para o meu filho? Ou foco minhas atenções no trabalho, no microambiente (leia texto sobre isso no Transformai-vos), nas relações familiares nem sempre fáceis, nas dúvidas sobre o parto, no relacionamento com minha esposa, em minha espiritualidade, para ser um pai são e preparar um filho para contribuir com o mundo? (leia aqui o texto de uma mãe pensando nisso)  
Pensa aí.

Pensou? Qual foi a sua conclusão? Bem, eu escolhi a segunda opção. E é um desafio muito maior do que o primeiro. Sei que meu voto vale, acredito que minha opinião vale, que o que digo pode valer pra você, mas preparar-me para criar alguém que possa fazer por seu presente e por um futuro ainda mais distante me parece mais sensato. Vivemos em um mundo onde todos temos opinião, balizada ou não, sobre tudo e a informação é difusa e a propagação de verdades cegas e discursos mudos de intenção coletiva imperam. Um mundo de cegos, surdos e loucos, sem a graça do filme com  Richard Pryor e Gene Wilder. Nesse contexto, investir no futuro com uma peça que depende inteiramente de mim parece ser a melhor das minhas contribuições no momento. O presente caótico não deixa pistas de pra onde vamos e ainda sim tenho esperança. Minimamente, posso pensar no cidadão de daqui há 15, 16, 21 anos, fazendo o máximo pelo microambiente dele, tentando melhorar aquilo que o cerca mais de perto, a começar em mim. Não há responsabilidade mais natural e ao mesmo tempo mais insana. Sanidade, era disso que se tratava esse texto. Que loucura.  

Assim, deixarei o parlatório por hora. Continuarei observando os rumos do país e as intenções dos possíveis dirigentes para fazer minhas escolhas, mas me ausentarei das análises coletivas da relevância ou não da copa e do discurso dessa ou daquela ideologia política. Não mais sofrerei vendo e tentando remediar a desinformação dirigida, preguiçosa e virulenta, travestida de revolta. Esquizofrênicamente, mergulhado em um pensamento ego-altruísta, meu foco é o Pedro. E é pra ele que eu digo: obrigado por trazer sanidade ao seu pai, filho.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Estiagem em dois poemas


Dois poemas de uma vez (e um desenho). Por que eles não são um só? Porque cada um é um.

Secos

Estamos todos secos.
Sem a harmonia das águas de março, sem umidade da novidade,
o orvalho da madrugada, o frescor da manhã desejada.
Estamos desidratados, sem verde, sem rosa, sem liláses, sem nada.
Estamos sem lágrimas, estamos exaustos.
Estamos descrentes, estamos serpentes, repletos do fel.
Seguimos, mochila nas costas, poeira de estrada.
olhamos pro horizonte desértico que não nos leva a nada.
Se há um poço, olhamos pro moço, com olhar dissimulado.
deve ser miragem, estéril como toda paisagem.
Ou é pingo d’água a ser pago a preço de galão.
Nossos sonhos são áridos, nossos desejos pálidos
que só ganham cor com o rubor da raiva incontida,
e hidratação com o transbordar do calíce da ira
outra visagem transformada em saída
A aridez não motiva, impede a vida
Estamos todos secos à espera da chuva
Estamos todos presos ao medo e à culpa
Sem acreditar em fontes, em nascentes de rios.
Nos restam as divinas gotas,
pois aos nossos olhos, nós somos as crenças mais rotas.



Hitratar

Dá-me tuas gotas
e o sentido de não haver
As tuas lágrimas e a experiência de as sorver
os teus risos e o poder contagiar
e inundar a sequidão
eliminar de vez o oco
preenchendo-o de coração.  

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O herói e a culpa nossa de cada século.


Ontem homenagens e mais homenagens foram feitas para ele. Esse texto não pretende ser mais uma. Mas perdoem-me se porventura soar como tal. Esse texto,na verdade nem é sobre ele, é sobre culpados. Aquela cena famosa. O piloto nos braços do povo. Como nenhum mártir pôde ser, como todo político gostaria de estar, mas só ele conseguiu. Pelo menos nos últimos trinta anos. Sempre achei exagero chamar alguém que nasceu em berço de ouro e nunca deu uma contribuição prática para um país cheio de mazelas, de herói. Sempre achei exagerado, dado que ele era meio Dick Vigarista quando queria. Sempre achei exagerado, dado que amamos falar mal das vitórias esportivas do futebol. Tratamo-as nos últmos tempos como o pior da alienação brasileira. Basta uma competição futebolística e alguém usar uma bandeira para as críticas surgirem - hoje não pode. Imagina na...enfim, você sabe. No Brasil cantar hino, achar a bandeira bonita é dado como coisa de militar ou fascista, ou de militar fascista. À época das manifestações de junho, li devaneios e teorias conspiratórias que prometiam um golpe de direita e que a maior dos sintomas era cantar o hino. Não nego que o uso do nacionalismo e ufanismo fizeram mal ao mundo a partir de países e grupos que o usaram. Mas aqui somos avessos a tudo. Trauma? Não sei, talvez. De qualquer forma, para alguns de nós brasileiros usar verde amarelo é sempre bobo. É apoiar, endossar o governo ou apoiar um golpe de direita derrubando o governo de esquerda. Ou seja, não importa o lado, vestir verde amarelo é ruim. Vivemos em um país onde é cool dizer que não há senso crítico, que todo os nossos heróis são falsos ou que tem um lado obscuro (como se os de todos os outros paises também não o fossem). Orgulhar-se de qualquer coisa nascida aqui parece ser de uma ingenuidade de dar pena. Preocupamo-nos com a o uso político de tudo. Fomos e ainda somos enganados constantemente. Estamos à flor da pele, entendo. Mas voltemos ao piloto naquele dia, com aquela vitória histórica, com a bandeira nas mãos e os braços do povo Mais do que no dia acho hoje que ele ali teve um ato heróico. Por que com ele nos permitíamos gostar do Brasil. Um feito inatingível materializado nos braços do povo. Tá, nos braços do povo exatamente não, a final aquela pequena amostra de brasileiros presente no autódromo não representava socio-economicamente o povo brasileiro. Mas o representava sim, sem a menor dúvida, no sentimento de qualquer habitante da terra brasilis que tinha uma TV, não importando a classe social.       Com o piloto a gente não tinha vergonha da bandeira. A gente não pensava no governo. Quando o carro recebia a bandeirada em primeiro lugar a  gente não achava que estava sendo ufanista. Pode me chamar de tolo, mas gosto de ficar feliz quando uma seleção qualquer vence. Gosto de esportes, gosto de assistir olimpíadas e cada luta de judô. Gosto do sentimento de alguém do meu país ganhar e mais, gosto da bandeira brasileira. Pra mim, reunir uma nação que o tempo todo tem vergonha de si mesma, em um sentimento de vitória coletiva é um ato notável. Naqueles domingos todos poderiam ter uma alegria em comum sem pensar que estavam sendo massa de manobra ou “enganado pela mídia”. Talvez naquela época, por não haver rede social, a gente não fosse chato, pré-conspiratório, dono da verdade. Dessa forma também não havia a facilidade da opinião raza e das teorias da conspiração pra compartilhar. Talvez seja isso. Talvez fôssemos mais infelizes e precisássemos de um desafogo. Ou ainda o jejum de copas nos fazia orfãos de vitórias esportivas e achamos guarida em uma bandeira tremulada no automobilismo. Não sei. Apenas me lembro com um sorriso no rosto, sem culpa. Ela, a culpa, é um dos piores sentimentos que se pode ter. A culpa no Brasil é um o outro lado da moeda que não gostamos de carregar, a falta de vergonha na cara. Todo o jeitinho, toda a corrupção desde 1500 pesa sobre  nossos ombros. Não nos damos o direito de gostar daqui. É como se não conseguíssemos andar para frente. Ficamos presos no cículo vicioso de reclamar e nada fazer. De falar mal dos políticos corruptos e pedir pra transferir pontos das multas. E assim, o jeito de não parecer ingênuo perante às mazelas é nos culparmos como nação. Carregamos o fardo de tudo de errado que como país fizemos e nossa redenção é o autoflagelo. E a culpa sentida e transferida, que é o que mais a gente vê todos os dias nas redes, nos poderes e no cartório. Não acho o piloto um herói nacional na acepção da palavra, mas sinto-o como se fosse um pessoal, pelo benefício de uma memória minha de poder gostar das cores da minha bandeira novamente.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Brasil brasileiro no quando da Páscoa


Período.
Espaço de tempo. Trecho da vida
Quantidade de quandos para alguma coisa, ou para nada.
A páscoa do meu Brasil é assim, o quando de purificação.
O quando de sentir-se melhor e admitir que no resto do ano dá suas escapadelas, seus jeitinhos. O segundo da reflexão budista por motivo cristão. O cristo da religião.
Porque o Cristo da Bíblia não é dado a cobrar nada de ninguém, Ele dá.
Nosso quando pascoal da terra brasilis é pagar uma conta. Uma dívida que já foi paga, mas como deixamos em débito automático, o banco vive aceitando enquanto não nos damos conta da conta acertada.

Dentro do período chamado semana santa, que de fato, mas não de direito, dura três dias,
há o quando sincero de melhorar.  
Há a busca preguiçosa, mas verdadeira de purificar seus delitos.
Como quem acredita que uma dieta de emagrecimento feita no quando de uma semana, resultará na eliminação de 15 quilos. Esse período é também o quando do descanso do trabalho, quarenta dias depois do cansativo descanso do carnaval.
O quando de hidrogenar o cacau e do imaginar a cabeça do bacalhau.
Um quando repleto de verdades e de mentiras como qualquer outro dia do ano.
Cheio de jeitos e trejeitos como qualquer segundo do relógio.

A páscoa tupiniquim não é judaica e não é cristã. É só um pouco assim PMDB. E isso acontece desde quando? Desde a época de Cabral, quando viu o monte Pascoal.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A copa, o povo e o direito aos paranauê


Outro dia percebi que uma nova gíria invade o meu mundo. Sim, o meu, porque eu não sei se você que lê já ouviu a expressão “paranauê”. Se já ouviu estamos juntos, se já usou, me perdoe por esse momento “o que essa juventude está falando” que tive agora nos meus tenros 36 anos de idade.

Antes um canto de capoeira, o ritmo para a luta, paranauê, segundo os usos feitos próximos a mim, pode ter diversos significados. Você pode usar como “coisa”. “Pega lá os paranauê pra fazer a pizza”. Pode usar como preferência: “cada um com os seus paranauê”. Pode substituir por particularidades, características, ou macetes: “você sabe os paranauê de funcionamento do chrome?” E a mais usada, (veja aqui as origens da palavra e do meme) a de ressaltar que alguém sabe muito fazer algo "esse cara manja dos paranauê"

Isto posto, usarei a gíria do momento  nesse texto. Veja se você consegue identificar cada paranauê, digo, cada tipo de uso.

A copa vai acontecer. Manifestações vão acontecer. Li textos falando do atraso das manifestações. Que a copa não começa daqui a 4 meses, mas já começou há quase 7 anos, quando do anúncio. Assim como o governo federal, e também os governos estaduais e municipais demoraram a resolver questões de estádios, mobilidade urbana, aeroportos etc, o povo demorou a reclamar seus paranauês. Concordo, mesmo, sério, de verdade. Mas a demora não tira o direito de reclamar. Assim como eleger alguém não tira o direito de cobrar esse mesmo alguém. Há um movimento pelas não manifestações durante o campeonato, ou pela desvalorização das ações. Tá, não é bem um movimento, mas uma tendência.

Pensando na relevância dessa atitude tardia, há outro paranauê em questão, a idade dos manifestantes. Se a maioria tiver entre 20 a 28 anos é um contingente formado por pessoas que na época do anúncio da copa, tinha entre 14 e 22 anos, ou seja, a maioria nem adulta era e dessa forma é natural que a revolta chegue agora, motivada também pela primeira saída do sofá ocorrida nas manifestações de junho do ano passado.


Há porém um terceiro lado que une quem critica e quem apoia a manifestação tardia. O aproveitamento político da copa para a situação e das manifestações para a oposição. Estamos todos com as armas nas mãos para condenar qualquer que seja o uso de um e de outro. Como escrevi uma vez, a confusão continua. Direita, esquerda, ideologias defendidas e atacadas, experimentadas, utópicas e desesperançadas, frias e individualistas, coletivas e surreais. Nas redes, uma discussão por hora. Todo mundo é vilão e paladino e quem acha isso é alienado, ou está em cima do muro. Desde junho parece que percebemos que moramos em um país de atrasados. Tudo é muito para mudarmos em tão pouco tempo, Tudo é muito absurdo para questionarmos de maneira querente, isenta, sem defender o paranauê de cada um na hora da discussão. Tudo é muito vergonhoso para o povo ver tudo calado. Atrasados como as obras da copa. Atrasados como a dicotomia esquerda-direita num país rico de miseráveis. 


Nessa de discutir os paranauê ideológicos, já tem até quem não queira que a seleção Brasileira ganhe a copa. Dentro da profundidade abissal dos interesses lindamente desprendidos de cada um, segue fora de foco o desinteresse travestido de preocupação com os paranauê das pessoas, aquelas, cada uma e todas elas, que longe das ideologias, das desculpas, das diferenças, das indiferenças ou alheios a todos os bla bla blas e mimimis querem mesmo é ver quem é quem tem, no final das contas, mais paranauê pra mostrar dentro e fora das quatro linhas.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

A política no Brasil: uma questão de fé cega


No ápice dos protestos de junho escrevi por aqui que meu sentimento era confuso. Digo-vos hoje, que não era, continua. Naqueles dias (escrito assim parece que fazem anos) toda e qualquer opinião, ação, expressão, dirigia o autor para um lado, ainda que não quisesse ou se enxergasse assim. Se disse ”x”, significava que você era petista, se disse “y”, era reacionário, se cantasse o hino nacional era um fascista, mas se nada dissesse ou fizesse era um manipulado, alienado.

Todos passaram a ser alvos e juízes com os dois pés atrás na antítese da máxima jurídica in dubio pro reu. Exigia-se essa posição com as pedras nas mãos prontas para a execução. Uma guerra contra tudo e contra todos. Uma manifestação sem agenda, mas cheia de sentimentos confusos travestidos de convicções. Não estou dizendo que os indivíduos não tenham convicções e que elas não possam estar embasadas, pensadas até muitas delas experimentadas, vividas. Digo porém, que no mar de gente, tanto das avenidas tomadas em junho quanto nas redes hoje excitadas por prisões de pessoas políticas conhecidas, as convicções meio que se misturam, se perdem, se confundem. As certezas dos discursos de jornalistas de um e outro lado, de artistas, de amigos me deixaram um tanto quanto bobo. Sim, bobo.

A sensação é de que eu nada sei, de que apesar de minhas convicções estou em cima do muro, ou apenas não estou entendendo patavinas. Ler, assistir, o opinar de articulistas das mais diversas linhas ideológicas, acompanhar discussões, me deixa confuso sobre o tema central, mas cada vez mais convicto de uma coisa: as certezas de fatos que eu não conheço, continua sendo o sinônimo de fé.

São tantas referências jurídicas, informações em tese embasadas e compartilhadas por pessoas a quem eu não respeitava que encontraram eco em outras de minha inteira consideração, e vice e versa. Veículos, profissionais, amigos: em quem acreditar? Em meio a tantas certezas expressas por aí, vejo inúmeros buracos em qualquer lado que me apresente. E é aí que me vem o conceito de fé. Fé é acreditar apesar de não ver em mãos cada prova. Em meio a um caos ético, moral e político escolher um lado, ainda que este seja tão ou mais falho que o outro, é quase uma questão de fé. E acreditar na pureza de qualquer um deles é uma questão de fé cega.  

Talvez meu discurso pareça fatalista, desesperançoso. Quanto à política do Brasil, confesso, é. Um país com profundas desigualdades sociais, com massas manipuladas de um lado, e de outro, com intelectuais, elites classes médias hipócritas de olhos fechados para os primeiros. Um país gigante que tem vergonha de si mesmo e nesse sentimento se permite errar onde não deveria. Um país de gente que trabalha e rouba, sofre e sonega, luta e dá um jeitinho. Um país com dois lados que praticam os mesmo erros, mas alimentam a fé da pureza em si mesmos e a personificação do mal no outro.

Um país que há 500 anos vive da arte de “viver da fé. Só não se sabe fé em quê.”   

sexta-feira, 12 de julho de 2013

um desenho por semana por um mundo mais bacana LXXXIV

Feito baseado na sugestão de tema dado por Fernando Palma (parceiro de paredes) e Kie Magalhães (habitué e colaboradora eventual do oqéisso).

"FAB Linhas Aéreas"



Agradecimentos também a Junior Valler, Cinthia Maia, Ricardo Otake e Joab Barros. Quem sabe na próxima.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Meu sentimento é confuso

Ontem, umas 15h30 da tarde desisti de ir à manifestação. Desisti por  ver o uso partidário, ou antipartido XYZ, a tentativa da personificação de um alvo para as manifestações. Começaram a dizer que “nós, não queríamos A e B” que não tolerávamos a pessoa. Esqueceram de todos os outros. Esqueceram de 40 anos de várias alternâncias entre “As” de “Bs, nas diferentes esferas do poder executivo. Esqueceram que é por isso que fomos pra rua. Por causa do jeito de fazer política e não do político determinado. Esqueceram que não estamos aí por causa do provável mal uso dos recursos para os estádios da copa, mas pelos, novamente, 40 anos de mal uso do dinheiro público seja em obras, seja em salários astronômicos e seus 14°s, seja em regalias. Personalizaram a minha insatisfação. Começaram até a usar comercialmente protestos legítimos. Estava desistindo, li um texto sobre a provável manipulação das passeatas em São Paulo. Identifiquei-me com a sensação mais uma vez. Aí vi posts relacionados às manifestações apoiando a ditadura (!). Desisti.
Foi então que umas 15h40 conversei com um amigo pelo facebook, depois de muitos desabafos descrentes, ele me disse: “acredito que se tem gente querendo desvirtuar, tem gente querendo fazer direito
o que nao da mais pra fazer, e acho que vc concorda, é ficar apático
acho que esse movimento do pais, é um estopim
como eu disse já ja as coisas se separam e vc escolhe pra que lado vc vai
e recomeça tudo outra vez.”

Decidi ir porque a minha responsabilidade era revindicar aquilo que creio ser certo para todos, não me omitir e por o pé na rua e a cara a tapa. Acredito que já tenho feito isso aqui em meus posts quando questiono inclusive o que todo mundo concorda, mas a agenda confusa da hora exigia presença física. Decidi ir.
Fiz e postei este cartaz no instagram, do qual falarei em breve:



Fui para manifestação com alguns colegas de trabalho. Lá me maravilhei com as milhares de pessoas presentes. Me emocionei com uma imagem na qual dava pra ver os dois lados da Avenida Moraes Sales tomados e eu no meio em uma espécie de vale onde a Barão de Jaguara cruza. Percebi que aquilo realmente acontecia e que era importante e podia ser realmente relevante para o futuro e sinceramente se foi surpresa para todos acontecer no Brasil, pra mim foi ainda mais acontecer em Campinas. Encontrei amigos, desencontrei de outros, fiquei feliz de ver gente que eu nunca imaginei que estaria ali. Observei alas mais claramente posicionadas, observei as faixas etárias, observei as diferenças e similaridades entre os manifestantes. Observei os oba-obas, observei até mesmo a falta de memória recente de alguns manifestantes. Gritei palavras de ordem que achei relevantes, fiquei em silêncio, caminhei junto. Não cheguei à prefeitura onde o tumulto aconteceu; fomos desviados por alguns manifestantes que tentavam controlar o fluxo de pessoas que chegavam e saíam da Irmã Serafina.
Vi outras cenas que me fizeram entender coisas que via no noticiário dos primeiros protestos em São Paulo. Dei graças a Deus por ter ido, visto, sentido, mesmo que de leve.
Voltei pra casa, vi os confrontos pela TV. Na adrenalina, minha mente não pensava, só assitia, enquanto postava uma ou outra foto na rede.

O meu cartaz de protesto
Dormi. No outro dia recebi a chuva de coisas no twitter e facebook. Números, manifestações de extrema direita, anti-esquerda, anti-partido, anti-Dilma, pró-FHC. Ouvi no rádio o anúncio de que o MPL estava fora de qualquer manifestação a partir de agora. Li, assisti, ouvi sobre uma teoria sobre a tentativa de deixar cada vez meno político o ato conjunto de 1 milhão de pessoas. Vi post pedindo para acabar com os partidos. “O quê?” Lembrei do meu post no instagram. Lembrei que o meu protesto poderia ser mal entendido, e eu poderia ter ajudado um discurso de golpe, um discurso totalitário. Me envergonhei por 3 segundos. Me assustei por umas 3 horas. fiquei irado por uns 10 minutos. Tinha dormido com uma sensação de orgulho do país e acordei com a sensação amarga de que tudo poderia ir para o brejo sem escalas e com a minha anuência.

Tinha prometido um post para hoje: o que eu escreveria? Decidi falar sobre a confusão. A confusão não é o que acontece na hora das pedras, das bombas de efeito moral e do spray de pimenta. A confusão acontece agora. Na minha mente que não quer levar a sua pro lugar errado. Que não quer ajudar a propagar discursos que há tempos abomino. A confusão de não conseguir pegar no meu lápis pra simplesmente desenhar alguma coisa para o um desenho por semana. A confusão de não saber direito onde estamos, apesar de ter a clara noção de que isso é incrivelmente importante. A confusão de ter certeza de muita coisa, mas não saber de nada. A confusão socrática de unicamente poder dizer que está confuso.

Por favor alguém me responda, oqéisso?






 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

um desenho por semana por um mundo mais bacana LXXXII

Manifestação do Passe Livre. Lendo muita coisa, vendo tanta opinião pensada, impensada, sentida e insensível, às vezes redigida outras copiada, às vezes dirigida, outras simplesmente vomitada sobre as manifestações. Penso sobre tudo enquanto a coisa acontece. Parece uma inércia só pensar. Dei-me o direito de sentir sobre tudo isso e me expressei. Isso é o bastante? Não sei. 
Meu desejo é que soe só verdadeiro.

"Tezahürü 
مظهر SP"



terça-feira, 12 de março de 2013

Feliciano, cadê o Renan?


Pra começar, vamos deixar claro algumas coisas:
1. Não tenho qualquer apreço por Marcos Feliciano.
2. Como Cristão, condeno suas práticas como pseudo ministro do evangelho. Em minha opinião ele nunca conheceu a Deus, pois não creio  que alguém que  tenha conhecido aja como o deputado faz nas reuniões de sua igreja (já havia visto diversos outros videos que me provocaram asco antes desses divulgados pela folha).
3. O que ele falou sobre africanos é simplesmente absurdo, aumentado pelo uso béocio da Bíblia.
4. Ele realmente não deveria ocupar nenhum dos postos que ostenta hoje, seja na igreja, seja na câmara. 5. O deus dele deve ser Calheiros ou o Sarney

Isto posto, comecemos o assunto.
Há alguns dias comecei a avaliar as manifestações contra a nomeação deste senhor como presidente da comissão de Direitos Humanos da Câmara.  Até me manifestei contrariamente também  nas redes sociais e não me arrependo disso. Com o passar do tempo comecei a ver uma mudança de padrão nas manifestações. Começaram a aparecer provas de todos os lados da incongruência do deputado Feliciano com o cargo pleiteado. Comecei a perceber que o discurso anti-Feliciano se acirrava cada vez mais. O dito deputado sem falar mais nada parecia fazer com que um “saboroso” ódio fosse destilado pelos seus algozes (sim, ele falou outras besteiras depois).

O que me chamou a atenção nisso tudo é que, sinceramente, não percebi esse doce fel quando da posse de Renan Calheiros. Tá, mas, e o avaaz, e os milhares de posts nas redes sociais? Não tiveram a mesma vociferação de ofensas, o mesmo salivar pela a execração do objeto de ódio como no caso da Comissão de direitos humanos. A indignação aparentemente acabou e cedeu lugar ao "Caso Feliciano". Vida que segue, Renan não vai sair mesmo, então vamos para o próximo.

No entanto, o discurso contra Feliciano é mais apaixonado, mais devotado, com bandeiras levantadas. Contra Renan existia apenas o “que absurdo, esse país, né? vou participar desse abaixo assinado”. Contra o deputado do PSC está mais para “vamos prender esse pastor racista homofóbico e se possível expô-lo em praça pública”. Mais uma vez reitero, Marcus Feliciano, em minha opinião não merece estar lá (como explicitado no item 4).

A partir disso, aproveita-se para colocar em pauta questões como direitos civis para minorias, liberdade religiosa e o famigerado preconceito. Nada mais natural, afinal é exatamente quando um grande caso acontece que a sociedade se movimenta, discute e regulamenta seu modus vivendi.  Grande caso? Feliciano é um grande caso? Renan Calheiros como presidente do senado é um grande caso? E o Sarney? O que é um grande caso? Pode haver julgamento do tamanho dos malefícios, dos discursos, influência e práticas de um ou de outro? Contra Renan e Sarney não há nenhum deputado ou senador gritando. Qual a razão?

Talvez toda essa manifestação popular seja catalizada por um desejo de dar um basta nas indignações inócuas desse passado recente (como dito aqui no texto de Kie Magalhães). Talvez essa indignação de hoje esteja querendo criar asas e sair do conforto do abaixo-assinado. Mas talvez vociferar, mirar em novos culpados além dos velhos dinossauros que não conseguimos extinguir, seja um sentimento inconsciente de lutar contra alguém menor, mas também perigoso, que nós podemos vencer. Essa luta contra ele parece ser como se a sociedade dissesse “Perdemos de Calheiros, vamos pra uma fase mais fácil - quem sabe depois a gente volta” e acrescento, com mais barulho.

Feliciano é isso, um juvenil, que já dava golpes no setor religioso, acendendo no meio dos mestres da imunda tradição política brasileira. E para piorar deu de entrar no centro da discussão mais acalorada do momento exatamente para ter odiadores, crescer e representar outros fascínoras. Enquanto continuam os gritos nas redes, o Brasil esquece que se não extinguirmos os grandes, sempre aparecerão novos, alimentados pela história de impunidade jurídica e eleitoral de seus ídolos e um sistema amparado pelas nossas reclamações de megafone de baixo de ar condicionado.      
 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

um desenho por semana por um mundo mais bacana LXXIV

O terceiro desenho com tema colaborativo feitos de um dia pro outro (vejam os outros aqui e aqui).
Dessa vez com a ajuda carinhosa, interessada e bem humorada de Kiê Magalhães, Gisele Moura, Regina Mattosinho, Thiago Dias e Kadu Montagner. (Obrigadíssimo, pessoal)

Temas propostos: mensalão, Obama, possível queda do Palmeiras para a série B, decoração, e novo ponto de vista.

Dessa vez não deu pra abraçar tudo, mas dois deles estão por aí.







sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quebrem as portas

Quebrem, quebrem, quebrem.
Quebrem as portas, destruam as câmeras.
Peguem pedaços de pau pra bater sabe-se lá em quem.
Escondam-se com camisetas do Chapolim.
Briguem com a polícia por causa do direitos inexistentes.
Esqueçam-se dos estupros dos assaltos, dos assassinatos.
Cantem a uma a canção do Vandré achando que sabem o que é ter a liberdade cerceada.
Julguem saber o que é liberdade.
Depredem aquilo que não pagaram, o raro exemplo de educação pública decente, que nada tem a ver com o ensino fundamental e médio dos quais vocês nunca passaram perto.
Gastem o erário público que vem do dever de todos para o uso de vocês.
Gastem, gastem, gastem.
Sejam iguais a aqueles que não se importam com o dinheiro dos que pagam impostos com bem mais que suor.
Tentem ser cópias piratas dos movimentos que acontecem em Nova York, no Egito, na Líbia, em Londres.
Sejam adolescentes.
Botem a culpa, na tia, na professora e na diretora por não poder usar um celular em sala de aula.
Sejam crianças.
Esperneiem, esperneiem e esperneiem.
Sejam adultos mimados frutos de uma criação sem limites, achem realmente que podem fazer tudo o que querem.
Ignorem, ignorem, ignorem.
Façam vistas grossas às questões como a miséria, a corrupção, os salários baixos de professores, de médicos e policiais no serviço público.
Então lutem, lutem, lutem mesmo pelo direito universal de fumar um baseado.
Queimem a bandeira de um país que vocês não conhecem e que amam desprezar.
Que educação, cidadania, responsabilidade e honestidade que nada.
A maconha é que é a salvação do Brasil!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Halloween

Bateram na minha porta
Gritando "doces ou travessuras"
Atiraram na minha cara
Com balas de glicose e cultura
Atraíram os meus lábios
Com sabor doce, grandiloquente
Obeso fiquei
Com meu cérebro dormente

Sorriram para mim
Com chapéu pontudo de bruxa
Olhei para trás
Minha história era uma abóbora murcha
Morcegos invadiram minha casa
Deixaram preto o meu teto
Com o tempo me acostumei
Que até achei que era certo

Comecei a ver rara beleza
Nas teias de qualquer aranha
Pintei as paredes da cozinha
Todas com a cor laranja
Passei a usar toda noite
Um tipo de fantasia
Meu rosto hoje causa susto
Em plena luz do dia

Mas eu estar sempre feliz
Com tudo que eu tenho amado
Meu língua puxar o erre caipira
Do estado do Colorado
Trick or treat
I have to write a tweet
I like the beet
But I can't eat.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Faltam-nos pedaços.


Nós campineiros estamos sofrendo uma enorme crise política. Gigantesca. Mas antes de pensar em falar mal da classe política (coisa que provavelmente você e eu já fizemos bastante nos últimos dias com todo o direito) falarei de nós todos.

A política é reflexo da sociedade que vota nela. Sim, mais taxativo impossível. Mas pensemos juntos. Ninguém nasce com um cargo ou com poder tal que inicie a vida pagando propina, desviando verba etc. É comum dizermos que se alguém entra para a política dificilmente ficará íntegro por muito tempo. Realmente é difícil, mas creio que o problema se inicia antes. Começa na completude de cada ser humano, aquilo que comumente chamamos de integridade.

A palavra “íntegro” significa ser inteiro, exato, completo, e eu costumo dizer que é não possuir brechas ou espaços, como se houvesse uma proteção ético-moral que nos revestisse contra qualquer tipo de contaminação no caráter. E esse caráter inteiro, sem brechas deve ser formado antes que o indivíduo exerça qualquer cargo de poder. Assim, qualquer cidadão deveria estar inteiro antes de poder entrar na política. Não podem faltar pedaços.

E como é que se faz para garantir que não faltem pedaços?

Um fragmento vem com a família, outro com alimentação e crescimento físico. Outro ainda com educação moral doméstica e educação escolar e acadêmica fora de casa. Outro pedaço com formação de caráter através do trabalho, da necessidade de esforço, da busca pelo mérito. Um bloco de exemplo por parte de quem é ou já foi autoridade, no lar, na escola, nas igrejas, entidades, e nos cargos públicos. Faltam aqueles pedaços de regras que servem de limites e norte para alguma de nossas ações. Pra tapar os buraquinhos, lazer, carinho, amor, arte, esporte e diversão.  

Tudo isso ainda não é garantia de integridade, pois cada um escolhe o que faz com seus pedaços, inclusive podendo jogá-los fora. Também existem pessoas que não tiveram metade desses elementos em sua formação e são mais completos que qualquer um. Mas certamente, quanto mais inteiro o indivíduo estiver antes de ter qualquer poder em suas mãos, menor é a chance de que alguma negociata, adentre em sua fortaleza.

A sociedade que reclama dos políticos é a mesma que começa de pequeno a abrir brechas para que os políticos saiam dela. Sim, essa sociedade é a mesma que joga lixo no chão. É a mesma que coloca o carro na vaga de idosos ou deficientes por apenas 5 minutos. É aquela que sonega impostos com a desculpa de que existem muitos tributos. Ou que anda a 140 km em uma via de 100 por saber dirigir muito bem. É a mesma que pensa na própria necessidade do momento esquecendo-se da do outro sempre. É a mesma que saqueia quando um caminhão tomba. É a mesma que faz abaixo-assinados contra a instalação de metrôs por causa de “gente diferenciada”.   

Talvez você faça tudo direito, talvez você seja inteiro. Então você sabe que faz parte da solução. Você não precisa se candidatar a nada, ser professor, sacerdote ou um caro palestrante. Você apenas precisa viver sem se desculpar por seus deslizes a partir do que outra pessoa faz de errado. Basta ficar com seus pedaços todos aí com você bem à mostra no dia a dia e ser base para outros juntarem os pedaços que talvez faltem neles.

Aí quem sabe paremos de produzir gente incompleta, que gosta de levar vantagem, seja no trânsito ou no congresso nacional.

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