UM DESENHO POR SEMANA

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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Pós


mundo esquisito
da certeza das coisas incertas
ninguém pode ser sabedor da verdade
Mas todos bradam suas próprias leis
"minha verdade", dizem eles, "é a minha verdade!"

mundo maluco, não do jeito cool
esquizofrênico, tudo depende
respeita-se o alheio enquanto há o wi fi
cai a conexão e o link se vai
a admiração cai
o respeito se esvai
o amor sai

mundo sem eixo
do bem ou do mal
sem corpo, sem cara, sem rumo, sem mais
em busca de qualquer coisa
que traga um ml de paz
Mas as armas estão nas mãos, no sangue e na mente
assim de todo mundo que se diz bom e carente.

mundo, vasto mundo, que nenhum nome rima mais
esqueçamos a trova
Engajemo-nos numa petição nova
num grupo, numa passeata da moda
e deixemos tudo pra trás

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sabe-se


Sabe-se lá, ouve-se cá. Sabe-se cá, ouve-se lá. 
Nada aqui, tudo ali, muita coisa diz-se por aí. 
Fica a certeza de desconhecer, 
pois se saber é ignorar lá o de cá, com a fatal recíproca, 
Não saber é que é sabedoria, 
mais do que um álibi, 
um exemplo de humilde sinceridade.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Estiagem em dois poemas


Dois poemas de uma vez (e um desenho). Por que eles não são um só? Porque cada um é um.

Secos

Estamos todos secos.
Sem a harmonia das águas de março, sem umidade da novidade,
o orvalho da madrugada, o frescor da manhã desejada.
Estamos desidratados, sem verde, sem rosa, sem liláses, sem nada.
Estamos sem lágrimas, estamos exaustos.
Estamos descrentes, estamos serpentes, repletos do fel.
Seguimos, mochila nas costas, poeira de estrada.
olhamos pro horizonte desértico que não nos leva a nada.
Se há um poço, olhamos pro moço, com olhar dissimulado.
deve ser miragem, estéril como toda paisagem.
Ou é pingo d’água a ser pago a preço de galão.
Nossos sonhos são áridos, nossos desejos pálidos
que só ganham cor com o rubor da raiva incontida,
e hidratação com o transbordar do calíce da ira
outra visagem transformada em saída
A aridez não motiva, impede a vida
Estamos todos secos à espera da chuva
Estamos todos presos ao medo e à culpa
Sem acreditar em fontes, em nascentes de rios.
Nos restam as divinas gotas,
pois aos nossos olhos, nós somos as crenças mais rotas.



Hitratar

Dá-me tuas gotas
e o sentido de não haver
As tuas lágrimas e a experiência de as sorver
os teus risos e o poder contagiar
e inundar a sequidão
eliminar de vez o oco
preenchendo-o de coração.  

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Poema da rede

















O vídeo mais incrível que já assisti.
Se você ama, curta e espalhe por aí!
Se tem coragem, vá, compartilhe
Não deixe de ler isso que eu mesmo escrevi!
Vai mudar sua vida, meu irmão, não vacile

A rede é assim tão intensa.
Eu grito “compartilhe” e você olha e pensa:
Estou perdendo da vida o melhor
Quem dera ter 36 horas pra viver
Ou será que seria pior?

Curtir, compartilhar e de repente comer
Meu Deus, ser ou não ser?
Viver é o que eu quero, a TL esbanja postagens
Por onde andei? Me desespero
Queria só o bom, mas há tantas bobagens

Ai de mim! Pareço agora tão elitista
Será que sou tucano? Ontem era petista!
Veja bem o que você vai comentar
Se era mesmo verdade
Que tal a vera verificar?

Hoje em dia há outra televisão de cachorro
de tanta comida postada eu morro
aumentou o colesterol da minha mente
entupiram as veias do olho
Será que engordei de repente?

Ah, que coisa terrível de ser dita
mas é essa vontade bendita
de dar a abalizada opinião
E agora o que faço desse post?
Vai virar fórum de discussão!

Mas deixa pra lá essa vida cor de palha
de filtro, de farsa, discurso ou coisa que o valha
Estarei aberto assim, democraticamente  
como ocorre desde oitenta e quatro
a receber vossa opinião influente

Agora me despeço desta vil versada
Viva o social e o relacionamento camarada
Para o hipster e o precursor da vez uma palma
Cheguei ao fim desta incrível jornada
Aos amigos, uma cutucada do fundo da alma

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O mar do canto



















Ali no canto da praia, perto das três pedras
Conheci outro mar.

O mar dos velhinhos e crianças
O mar do coral evidente
O mar da areia gelada
De esconder do sol
De ficar sentando

O mar do violão sem voz
O mar do cais sem barco
O mar da viagem sem ida.
Da viagem sem volta,
De ficar esperando

O mar do verso nu do cartaz da agência de viagem
O mar de centavos e milhões
O mar lacônico, com sorriso no rosto
Pouco afeito a gargalhadas
Pequeno como ele pode ser

O mar de se importar não se importando
O mar de ficar no canto.

(imagem tirada do clip Warm Jets da banda 78 Saab -  dica do Marco Redondo)

terça-feira, 24 de abril de 2012

E só assim ser




Segui pra algum lugar que eu não conheço.
E não é isso que todo mundo faz?
Corri com pernas que não são minhas e o tropeço foi maior que o salto de cima da ponte.
Vi o mundo com olhos de outros, curei minha miopia, mas peguei conjuntivite.
Experimentei com o paladar alheio, me fiz de gourmet e perdi o gosto do arroz com feijão.
Assoviei belas canções mentirosas, desafinei minha alegria, esqueci a harmonia.
Barganhei por coisas que eu nunca gostei e a vantagem da troca não foi minha.
Meditei horas a fio, encarei minha cara à imagem e semelhança de mim mesmo.    
Perdi o sono, esqueci o sonho em algum canto do quarto de alguém.
Levantei cedo, lavei meu rosto e aparei a barba do velho ego.
Fiquei um jovem qualquer que há por aí no mundo
Suei pela paga de um salário que não tinha a ver com moeda, mas era ainda mais vil.
Continuei devendo tudo, repleto do que havia dos outros em mim e vazio de qualquer senso.
Mas alguém chamou o garçom, pagou a conta e me disse “vai”.
Eu fui, depois de jogar tudo fora e ficar vazio. 
E só assim ser de verdade.   

quinta-feira, 8 de março de 2012

A própria poesia

Homem é ponto
Mulher é vírgula
Homem quer significado
pra mulher basta o adjetivo
Homem busca objetos diretos,
Mulher quer é predicativos.
Homem é vocativo
Mulher é aposto
Homem é hiato
Mulher é ditongo
Homem é substantivo concreto,
Mulher é verbo transitivo, sempre indireto
Homem é a primeira pessoa do singular
Mulher é a primeira do plural
Homem é presente do indicativo
Mulher é futuro do pretérito com presente do subjuntivo
Homem é dicionário,
Mulher é neologismo
Homem é o sentido exato,
Mulher é a entrelinha
Homem escreve poema, 
Mulher é a própria poesia



Feliz dia da mulher. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O que me importa o céu escuro?

O que me importa o céu escuro?
Aproveito o vento,
Jogo fora o medo,
Empino uma pipa
E jogo a cor nas nuvens.

Foto: Elizabeth Weinberg

















terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O que esperar de você

Que você seja sério
Que você seja safo
Que você seja sócio

Que você seja perfeito
Que você faça direito
Que você seja magro

Que você seja engraçado
Que você tenha tudo pago
Que você seja bem sucedido

Que tenha um baita salário
Que seja sempre necessário
Que você tenha filhos

Que seja um bom provedor
Que tenha espírito inovador
Que dê conta de tudo

Que tenha três diplomas
Que mexa com muitas somas
Que seja criativo

Ou que não seja nada
Que viva uma vida errada
Que ande solto no mundo

Que não conquiste uma meta
que não ande em linha reta
Que seja uma causa perdida

Que seja um estranho no ninho
Que viva num redemoinho
Que ninguém sabe o que vai causar.

Que cante desafinado
Que o cedo seja o atrasado
Que exato seja o impreciso

Que seja o que todos querem
Que seja o que todos invejam
Mas que ninguém admite

Que seja humano
Que seja completo
Enfim, que seja indivíduo 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Halloween

Bateram na minha porta
Gritando "doces ou travessuras"
Atiraram na minha cara
Com balas de glicose e cultura
Atraíram os meus lábios
Com sabor doce, grandiloquente
Obeso fiquei
Com meu cérebro dormente

Sorriram para mim
Com chapéu pontudo de bruxa
Olhei para trás
Minha história era uma abóbora murcha
Morcegos invadiram minha casa
Deixaram preto o meu teto
Com o tempo me acostumei
Que até achei que era certo

Comecei a ver rara beleza
Nas teias de qualquer aranha
Pintei as paredes da cozinha
Todas com a cor laranja
Passei a usar toda noite
Um tipo de fantasia
Meu rosto hoje causa susto
Em plena luz do dia

Mas eu estar sempre feliz
Com tudo que eu tenho amado
Meu língua puxar o erre caipira
Do estado do Colorado
Trick or treat
I have to write a tweet
I like the beet
But I can't eat.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

07 de setembro

Hoje serei independente de tudo e de todo mundo.
Do status quo, da vida agitada, do trabalho, da função, do talento ou da falta dele, da competência ou da incompetência.

Serei independente do horário e da falta de tempo.
Serei independente da minha falta de coragem ou do meu excesso de atitude.
Hoje eu serei independente da falta de patriotismo ou do ufanismo que eu nunca vi por aqui                                                                                                                                                                                            
Serei independente da roupa certa, da hora do almoço ou da comida que me faz bem.
Serei livre para descansar ou para cansar. Serei independente até mesmo do ócio obrigatório, caso eu queira.

Serei livre de precisa dizer, de significar, de parecer. Livre para desafinar, para errar, para mal conjugar, para escorregar.

Darei meu grito de independência de tudo que não é, mas deseja ser em cima de nós.
Gritarei às margens da pia da cozinha, ou do riacho de uma cidadezinha distante.
Bradarei “liberdade” com punhos cerrados e sorriso no rosto, com revanchismo e amor ao mesmo tempo.

Dançarei suavemente com meus 90 quilos e tombarei no chão de exaustão.
Sonharei com meus olhos abertos, livres de telas, independente das imagens delas.
Serei livre de mim mesmo, das minhas neuroses, da minha autocensura.

Serei livre do resultado e da performance.
Serei livre da arte e do fazer.
Livre da beleza e até da emoção, independente da necessidade, do desejo e da busca.

Mas não serei livre de pensar que a independência que se grita dia sete de setembro é só pra brasileiro ver.
  

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O corte

O corte do papel no dedo
dói
o suficiente para um poeta chorar
e escrever
mais um poema
fingido

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A tal coisa de olhar para o lado

Tenho ideias do que fazer
Para ir do onírico ao real
Mas aí olho para o lado
E me vem as coisas da vida
Me desculpo
e não faço

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Poema insone

Conto histórias para mim mesmo
Para ver o sono chegar
Na cama faço poemas
Que se findam quando durmo
E ao acordar nunca existiram

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A pauta

A pauta nos falta
a falta de pauta
nos deixa sem voz

A pauta nos mata
Gigante a pauta
nos deixa sem cor

A pauta nos guia
da dor à alegria
do ódio ao amor

A pauta assalta
mal ou bem trata
vazio seja qual for

A pauta incauta
É o guia, o guru o sensor

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O amador e o profissional

Podem residir num só
Mas geralmente negam-se mutuamente
Enquanto um simplesmente é
O outro vive tentando ser
Amante, trabalhador
Profissional, amador
Buscam ou vivem
Ou vivem buscando
ou procuram viver
ou procuram trabalhar, ou amar
amam o vencer, amam o fazer
ou amam amar
São dois, podem ser um
Mas nem sempre querem, nem sempre conseguem
Amam ou gostam
Um e outro
Porquê é assim, porquê querem assim
Ou porquê tem que ser assim
Amar e fazer.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Uma sopa de poesia, design e fotografia

Olha só
Trabalho feito em tríplice aliança - oqéisso - moai - junior valler
Parceria que promete.
O Pessoal da Moai viu o poema "sopadeletrinhas" aqui no oqéisso, teve a inspiração, e executou. junior valler foi lá, capturou tudo e blogou.

confereaê
sopadeletrinhas - o poema
dando sopa pra você - a arte, o design, o post (explicação do conceito e fotos)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tudo é lindo e nada é meu

Ás vezes vejo-me fantasiado de libelo da luta pela verdade artística.
Um bastião da originalidade, da sinceridade musical, literária,
na busca pela pureza plástica, de intenção.
Aí, de repente olho-me no espelho e rio.
Depois, a feição muda, ruboriza
Como na vergonha de quem acabou de derrubar o garfo no chão
no jantar em que se conhece o pai da namorada
Segue-se então, um reprovar-se a si mesmo
Pela eloqüente negação da relevância da obra dos outros
É nesse momento que escuto uma canção,
enquanto imagens em movimentos se sobrepõe
Enquanto cores se misturam a tudo e palavras vem à minha mente
Nenhuma delas parece ser minha
São todas usadas, gastas
Nenhuma das cores foi misturada por mim
Tão pouco as imagens e as melodias
Mas, tudo é lindo e nada é meu
Tudo, na verdade sou eu
E aí a sinceridade e apureza aparecem
Volto-me ao original que não existe
E de maneira clara percebo que sempre esteve aqui

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