UM DESENHO POR SEMANA

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Muito velho pra amar futebol americano


No último domingo Tom Brady e seus colegas de time sagraram-se campeões no superbowl. Após uma sequência de viradas e um bloqueio incrível na última jarda do ataque dos Seahawks, os Patriotas honraram seu nome e deram orgulho azul e vermelho para todos nós.


Toda essa introdução foi redigida sem eu ter assistido a um minuto se quer do jogo, ou até mesmo lido, procurado a resenha do espetáculo por aí. Tudo o que sei da partida  foi montado dias antes e nas primeiras horas da segunda-feira, o dia seguinte do feito do marido de nosso orgulho nacional, Pelé (troca), Eike Baptista (troca), Romero Britto (troca), Paulo Coelho (troca), Gisele Bundchen.


Muito se falava disso. Em termos publicitários é o evento do ano (o engraçado é que estamos em fevereiro). São os segundos comerciais mais caros da TV mundial e eu, como redator, recebi de todas as minhas referências no twitter e no instagram, uma chuva de análises criativo-mercadológicas dos filmes que passariam nos intervalos do evento, bem como os números dos investimentos feitos. Sim, mas isso acontece todo ano.


Na verdade, uma mudança de comportamento que acontece a cada ano foi que me chamou a atenção: o aumento da quantidade de brasileiros engajados, não com o fator comercial, mas com uma dita paixão especificamente pelo New England. E para falar sobre isso estou muito confortável.


Há cerca de 20 anos comecei a assistir futebol americano. Na época, como a grande maioria dos brasileiros, na casa da minha mãe não tinha TV por assinatura e saber da existência do esporte passava por duas origens:

  • A sessão da tarde com todas as comédias românticas de highschool e seus grupinhos de sempre - os nerds, os mais ou menos, os atletas e as cheerleaders, que invariavelmente eram as garotas populares, namoradas dos membros do time.
  • Transmissão da NFL na Band, com narração de Luciano do Valle.  


A primeira, me influenciava como tudo que vem dos EUA, como produto cultural, mas não acrescentava absolutamente nada em termos do que realmente era a modalidade esportiva em questão.


Foi a segunda origem que me ensinou a respeitar o esporte. Como havia feito com o voleibol, a NBA e posteriormente a Fórmula Indy, o Sr. do Valle trazia mais um esporte distante da realidade dos brasileiros, abordando-o como cultura, como modalidade que merecia ser vista. Em suas transmissões, Luciano era didático. Foi com ele que entendi o que era uma jarda, que eram necessárias dez para alcançar o primeiro down, que um time só atacava e outro só defendia, que o quarterback era o 10 do time, que o receivers eram os  centroavantes que precisavam estar no lugar certo, na hora certa, que os wide receivers eram como pontas-de-lança, e que os zagueiros eram, bem, zagueiros. Aprendi que cada equipe tem dois times, um que defende e outro que ataca. Aprendi o mais importante, a analogia do jogo: o campo de batalha. Entendi um pouco melhor o fascínio que aquele país tem pelo esporte. Entendi também muitas das relações daqueles filmes pueris que passavam às tardes na emissora dos Marinho.


É nesse ponto que me encontro comigo mesmo nos dias atuais vendo com estranhamento o fascínio de alguns brasileiros por determinado time hoje.  Ainda que eu entenda e aprecie o jogo, respeite a qualidade pirotécnica do espetáculo e saiba de sua relevância comercial, me assusta um pouco esse envolvimento todo. Sim, amigos, cada um se diverte e admira o que quiser! Mas confesso que eu, palmeirense de nascimento, prefiro ver um #vaicurintia a um #gopats na timeline. A paixão por times geralmente vem de uma identificação que passa pela relação cultural ou familiar, demográfica, social ou ainda de prática do esporte. Aí ao ver pessoas se preparando para ver o jogo, ansiosas, uniformizadas, e eu lá sem entender, comecei a analisar os possíveis motivos.


1. Você é esposa do Tom Brady


Não, acho que você não é. Próxima.


2. A culpa é do nosso futebol

É a primeira coisa que vem à mente. Corrupção, campeonatos mal elaborados, times fracos, os melhores jogadores fora do país, monopólio de transmissão e a quase impossível tarefa de escalar um time titular na cabeça como se fazia há 30 anos. Sabe a tal da falta de amor à camisa que se diz por aí? Não é um fenômeno que atinge só os jogadores. Os novos torcedores pelo jeito também perderam o sentimento apaixonado.
Meu sobrinho de 8 anos sonha em jogar no Real Madrid, no Paris Saint Germain ou no Chelsea. Nunca pensou em defender a seleção ou jogar em qualquer time daqui.


3. É natural, agora temos acesso fácil a tudo que vem de fora.

Na época do Luciano não tínhamos acesso a 2% do conteúdo que temos hoje. Além do aumento de residências com TV por assinatura, são 22,8 milhões segundo a Anatel, passamos de uma internet incipiente para uma nuvem de informações que estão a nossa volta o tempo todo. Não existem fronteiras, como as operadoras de telefonia gostam de dizer. Hoje o produto cultural seja ele em forma de música, filme ou mesmo esporte está a mão pra quase qualquer um, na hora em que se deseja.


4. American way of life
Eita, mas esse papo é antigo, hein? Opa se é, tem pelo menos 85 anos. A admiração pelo modo de vida americano, somado ao momento de baixa auto-estima da população tupiniquim pode ser uma explicação. O sonho dourado de boa parte dos brasileiros médios (expressão perigosa) é viver como nos Estados Unidos. Não como na Dinamarca, Alemanha, ou Austrália, mas como na terra do Tio Sam. Quando se compara o poder de compra das moedas, os impostos pagos e as burocracias, o padrão é sempre os EUA. Durante as eleições, se a atual presidente ganhasse, meio Brasil iria morar em Orlando. Ninguém foi, mas sempre tem as férias pra dar aquela passeada marota na Disney e trazer muamba gourmet, quer dizer, cool, high level, VIP. Só lembrando, o time chama Patriots e o mascote é um soldado lembrando a independência do Bras...quer dizer, dos Estados Unidos da América.


5. Redes sociais e o desejo de diferenciação dos demais
(contribuição no argumento por Felipe Coelho)


Ah, o glamour das fotos, o prazer em compartilhar, o frenesi de se ver melhor. Aceitamos ser amigos de centenas de pessoas para nos mostrarmos diferentes ou melhores que elas. Tá, eu e você não fazemos isso, a final somos diferentes (opa). É como quem cita aquela banda que ninguém conhece, ou a frase filósofica daquele autor que vai te fazer parecer inteligente. Pense comigo: torcer apaixonadamente para um time que fica numa cidade de um país que não é o seu, de um esporte que você nunca praticou, com o qual você não tem uma história ou relação. Se o incipiente torcedor brasileiro que se uniformiza e comemora um título como se fosse dele, não tiver pelo menos 3 das características acima, o desejo de status e diferenciação pode ser um deles.


Tá, mas e os Patriots com isso?
Eles ganham com a globalização do nome e o consumo da marca. Da mesma forma a NFL (National Football League) e os EUA. O horário da TV fica cada vez mais caro, já que os anunciantes tem mais e mais público assistindo seus comerciais, os shows ficam ainda mais inacreditáveis e o ciclo só se fortalece.


Tá, mas e você com isso?
Eu? Eu nada. Cada um se identifica com o que acha que tem a ver consigo. Se conhecendo o futebol americano há 20 anos, com toda a influência hollywoodiana não me apaixonei por nenhum um time, não será agora que isso vai acontecer.Talvez o que escrevi aqui não explique essa paixão repentina de alguns brasileiros.Talvez apenas esteja muito velho pra me apaixonar por um time de futebol americano. Eu estou com a reles maioria, o time para o qual eu torço ainda troca as mãos pelos pés.
 







segunda-feira, 18 de junho de 2012

O que os games significam pra mim

O vídeo abaixo causou em mim duas sensações e me fez resolver de uma vez por todas minha relação com os games. Sorri com o passado, admirei o presente e segui em frente.


Nunca tive uma relação tão próxima como a maioria de meus amigos, seja hoje, seja na infância. Sempre gostei de jogar, tive alguns, mas nunca curti tanto quanto os outros.

Quando criança e na pré-adolescência, gastei horas jogando sim, mas não ao custo de broncas por excesso. Hoje vejo que isso acontecia não por que eu fosse obediente, mas por não gostar tanto assim daquilo.

Vi amigos chorando, xingando e violentando o atari (tá, eu tenho mais de 30 anos) pois o videogame o estava “sacaneando” ao provocar batidas no Enduro.

Vi gente que esperava, pedia, importava (isso era complicado na época) o console mais moderno pra ter antes dos outros. Vários perderam provas, ficaram de recuperação “para dar final” no Super Mario, Sonic, Prince of Pérsia ou gastaram os tubos em fichas pra aprender todos os golpes de Street Fighter  no fliperama (se você tem menos de 25 anos talvez nem saiba o que é isso) perto do colégio.

Eu nunca fui assim. Nunca terminei um jogo primeiro, nunca fiquei ávido por um console novo. Quis, mas se meus pais achavam caro, nunca me esforçava para expressar um desejo maior pela aquisição.

Tive apenas dois games: atari e um turbo game (nintendinho genérico com abertura que permitia o uso de cartuchos no padrão americano ou japonês) ambos adquiridos pelo meu irmão mais velho. E foi só.

Toda a evolução Master System, megadrive, superNES, 64 e depois os XBOX , Wii e PSs da vida foi experimentada chupinzando os amigos e colegas.








Hoje tenho amigos de minha idade, casados, alguns com filhos, que continuam curtindo muito os novos jogos, compram, parcelam, colocam na conta do mês o gasto, esperam trailers (no passado eu não entendia alguém assistir trailer de jogo) e eu não consigo gastar dinheiro com isso. Questão de prioridades? Sim, também. Mas tem o gosto, como e se aquilo importa pra você.

Do alto dos meus 34 anos, vejo os games hoje como mais do que uma indústria de entretenimento eletrônico. Eles já tem história, já fazem parte da nossa cultura e dizem muito sobre a evolução de costumes e principalmente da tecnologia dos últimos 35 anos.

Os temas dos jogos, a relação de algumas invenções com a cibernética, sua importância até mesmo em tratamentos de saúde, no desenvolvimento da indústria, a infuência na forma como utilizamos serviços bancários, nos relacionamos on line, somos impactados por uma comunicação, o que vestimos ou mesmo como nossa mente antigamente offline passou a ser perpetuamente online. Os jogos são parte importante do mundo que vivemos hoje, não dá pra fugir.

E é essa a relação que tenho com eles. Fico feliz de ter participado do seu desenvolvimento, de quando viraram indústria, de ter visto e jogado ícones como Pac Man, Donkey Kong, Mario, Double Dragon, Doom, Duke Nukem e Mortal Kombat (pra citar poucos)que hoje alimentam milhares de paródias, memes, músicas e novos produtos.
Fico feliz de entender como as coisas começaram e ver pra onde estão indo. Vez enquando assisto trailers, leio as notícias sobre o mercado e outras experimento uma partidinha de um jogo novo (tomo um coro) quando estou na casa de amigos. Penso na razão do fascínio daquilo, na história do game, no desenvolvimento, no mercado e aprendo. E aquilo é o suficiente pra mim.

Mas é claro que pra relaxar, às vezes jogo um Song Pop[zinho], ou ouço o tema do Super Mario em bluegrass, afinal, ninguém é de ferro.


E pra você, o que ele significam?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O que é, o que é?


O país que foi um dos primeiros a abolir a escravidão, mas que permite a existência de grupos que professam claramente seu ódio por outras etnias, tudo em nome da liberdade.

Lá, o porte de armas é culturalmente aceitável, a final se você é livre, pode escolher ter uma arma, não importa o calibre.

Nesse país não há 318 partidos, se dividem em 2 basicamente. Certas vezes os ânimos se acirram, alguns se inflamam e as polaridades podem resultar em curto-circuito.   

Lá há grande frequência de casos de franco-atiradores tirando a vida de civis pelas ruas.

Nesse país é comum (bem mais do que em outras nações do mesmo hemisfério) adolescentes, oprimidos e depressivos se voltarem contra sociedade e manifestarem seu descompasso através de tiros.

Uma nação que prolifera e vende sua cultura pelo mundo, e este os admira e consome seus produtos culturais com uma voracidade única.

Um país capitalista, localizado no ocidente, orgulhoso de sua democracia e da garantia de direitos civis a todos os cidadãos.

Um país que gasta a maior parte do seu orçamento com a indústria bélica.

Um país que bate no peito ao falar de liberdade e que aponta o dedo (e as armas) para toda a nação que a limita em seus respectivos territórios.

A “Terra dos livres, e lar dos bravos”. A terra de Jared Loughner, de 22 anos, acusado de atirar em uma deputada de seu país.

Ok, parece uma visão maniqueísta do país, e é. Só para colocar uma lente de aumento na nação que tem o poder de liderar o planeta em um rumo melhor (aliás o mundo todo colocou essa esperança em Obama, lembram-se das eleições norte-americanas?)

Todos nós amamos a cultura deles. Música, cinema, arte, literatura, religião, até esporte. Marketing, o jeito de vender as coisas, de promover e de ver a si mesmo, de orgulhar-se de que é. Amamos. Consumimos o seu luxo e o seu lixo. Até quem os odeia, mostra essa admiração - às vezes de uma forma doentia - enrustida.

Toda essa admiração esconde um país com muito ódio, com muita opressão sobre seus cidadãos, com muito preconceito sobre si mesmo e com um olhar arrogante sobre outras nações.

Vi em um filme de comédia deles a frase: “Ah esses, americanos! Tanta força e tão pouco discernimento do que fazer com ela” . Eu diria pouquíssimo. Dentro deles reside a eterna briga entre liberdade e auto-controle. Direitos civis versos respeito a todos. Patriotismo versus arrogância.

E no meio dessa esquizofrenia deles cito o louco do ditador Hugo Chávez que diz “Yankees, GO home!” . O cito para fazer diferente. Eu digo: “norte-americanos, We Love you. Please, take good care of your home”

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